Por causa do Dia da Língua Portuguesa, 5 de maio segundo oficializou a ONU, comecei a interrogar-me sobre qual teria sido o sítio mais distante em que conversei em português. Pensei em Tóquio, numa reportagem em que falei com a professora Mihoko Oka, especialista em Descobrimentos; também em Sausalito, na Califórnia, onde visitei o Centro Cultural Português e conheci o açoriano Joe Matos; e igualmente em Díli, onde entrevistei José Ramos-Horta, entretanto eleito pela segunda vez presidente. Fui ao Google e, de facto, os mais de 14 mil quilómetros entre Portugal e Timor-Leste deram-me a resposta. E é curioso que uma das perguntas que fiz na época a Ramos-Horta foi exatamente sobre o estado da língua portuguesa no país, independente desde 2002 e que escolheu como língua oficial o idioma do antigo colonizador, chegado no século XVI. Foi uma forma de reafirmar a identidade nacional, perante o bahasa, língua de uma Indonésia ex-ocupante, e o inglês, da vizinha a Sul, a gigante Austrália. A resposta então dada foi de otimismo.Ontem, Ramos-Horta, também por causa do Dia da Língua Portuguesa, voltou a expressar a sua confiança no futuro do português, língua oficial a par do tetum, idioma que tem também muito vocabulário legado pelo português. “A íngua portuguesa reforça identidade nacional e abre portas internacionais. A evolução tem sido extraordinária”, afirmou o presidente timorense e divulgou no Facebook o embaixador em Díli, Duarte Bué Alves. Seja produto da expansão imperial, seja por via da emigração, o português é, de facto, uma língua global, uma das mais faladas do mundo, com perto de 300 milhões de falantes e um ritmo acelerado de expansão. Também se expande através da aprendizagem por gente de vários povos, sejam os alunos da Extremadura Espanhola que estudam a língua do país vizinho, sejam pessoas, de terras muitas vezes distantes, que apostam no português pela via académica, como a japonesa Oka ou a indiana Manjulata Sharma, que há uns tempos entrevistei em Lisboa, onde veio para apresentar a sua tradução para hindi de Mensagem, de Fernando Pessoa. Ou ainda a professora Wang Suoying, nascida na China, que há mais de três décadas escolheu Portugal como casa e que é uma verdadeira ponte entre os dois países..É graças aos mais de 200 milhões de brasileiros que o português entra nas dez línguas mais faladas no mundo. E o crescimento esperado nas próximas décadas tem sobretudo que ver com o dinamismo demográfico africano, com Angola a contribuir muito para a expansão da língua ao tratá-la não só como idioma oficial como também de unidade nacional.Por causa dessa diversidade é tão enriquecedor ler José Eduardo Agualusa, Gonçalo M. Tavares, Ruy Castro, Germano Almeida ou Luís Cardoso, nomes que destaco como gosto pessoal e por serem contemporâneos, mas poderia dizer tantos outros, desta época e de outras. Representam diferentes geografias, cada um com as suas referências culturais, mas todos a escreverem na língua a que o poeta brasileiro Olavo Bilac chamou “a última flor do Lácio”, relembrando que o português, que veio do galego até se tornar língua de um reino e depois de um império, tem a sua raiz no latim falado por esses romanos que há mais ou menos dois mil anos conquistaram a Península Ibérica. Nunca imaginaram eles o quão longe as chamadas línguas latinas chegariam. Timor-Leste é o melhor exemplo, o mais longínquo.Com o inglês como língua franca, a aprendizagem de outras línguas tornou-se uma mais-valia, e também uma prova de amor a determinadas culturas. O filósofo francês Bernard-Henri Lévy escreveu um dia que “a cultura geral começa depois do inglês”. Defendia, assim, o francês, língua de cultura por excelência, em tempos língua da diplomacia, hoje ainda língua de negócios, mas só em algumas regiões.Quando promovemos o português mundo fora, podemos sempre dizer que é uma mais-valia aprender uma língua falada em vários continentes, em países tão diversos como um membro da União Europeia, um membro dos BRICS ou um membro da ASEAN. E sabemos que o sucesso dos cursos de português nas universidades chinesas tem muito que ver com essa abordagem pragmática, mesmo que haja entre os alunos verdadeiros apaixonados pela cultura portuguesa, como já conheci alguns a trabalhar na embaixada, em Lisboa. Aliás, fui conhecendo ao longo dos anos diplomatas, de nacionalidades várias, que confessaram que a língua estrangeira que aprenderam em jovens acabou por moldar um pouco as suas personalidades. Um japonês disse-me em tempos que, por falar português, era visto pelos colegas como muito latino. E não posso deixar de relembrar como o então embaixador polaco em Lisboa, Jacek Junosza Kisielewski, pôs a sua equipa a cantar Amar pelos Dois, num vídeo que circulou antes de Salvador Sobral vencer o Festival da Eurovisão em 2017. Aliás, a Polónia continua a ter uma embaixada em Portugal recheada de bons falantes de português.."Por causa do Dia da Língua Portuguesa, 5 de maio segundo oficializou a ONU, comecei a interrogar-me sobre qual teria sido o sítio mais distante em que conversei em português. Pensei em Tóquio, numa reportagem em que falei com a professora Mihoko Oka, especialista em Descobrimentos; também em Sausalito, na Califórnia, (...), igualmente em Díli, onde entrevistei José Ramos-Horta, (...). Fui ao Google e, de facto, os mais de 14 mil quilómetros entre Portugal e Timor-Leste deram-me a resposta.".Não falei ainda de Camões, mas é obrigatório. O poeta não foi tão longe como Timor, mas sei, depois de ter lido a excelente biografia escrita por Isabel Rio Novo, que andou por Ternate, que é na Indonésia. Este português do século XVI, relembrou-me um dia Manuel Alegre, “é o primeiro grande poeta europeu que vai também ao encontro de outros povos e de outras culturas. Além da cultura extraordinária que ele tem, porque sem a cultura que ele tem não se pode escrever Os Lusíadas, Camões conhecia os gregos, os latinos, conhecia isso tudo. Conhecia a geografia, conhecia aquilo que nessa altura se sabia mesmo sobre a ordem do mundo. Ele viaja o poema, e adquire conhecimento com esses contactos. É o primeiro poeta europeu que vai realmente ao encontro do mundo, das sete partidas no mundo. E isso dá-lhe uma dimensão verdadeiramente universal”.Ontem, em Lisboa, na Biblioteca Nacional, inauguraram-se duas exposições dedicadas ao autor de Os Lusíadas. É uma justa homenagem. A língua portuguesa deve-lhe muito. Manuel Alegre, na mesma entrevista que já citei, contou que Amílcar Cabral lia passagens de Os Lusíada aos guerrilheiros do PAIGC. Mário Avelar, que foi meu professor, revelou-me um dia que Herman Melville tinha um exemplar da epopeia de Camões com ele quando era marinheiro e ainda ganhava fôlego para escrever Moby Dick. E não posso esquecer os olhos felizes da russa Olga Ovcharenko quando lhe perguntei um dia sobre o desafio de traduzir Os Lusíadas: “Para mim não foi um desafio grande, foi um prazer grande.”Camões, que foi homem do mundo, e dá nome ao Dia de Portugal, saberia bem que a nossa língua é nossa no sentido plural, de todos aqueles que a têm como língua materna, daqueles que decidem aprendê-la, daqueles que se sentem tentados a, um dia, estudá-la para poderem entender o que escreveram Machado de Assis ou José Saramago, o que cantaram Amália ou Cesária Évora, aquilo que discursaram Mário Soares ou Juscelino Kubitschek, aquilo que nos diz hoje, lá longe em Timor-Leste, Ramos-Horta.Uma boa ideia é continuar o esforço para o português ser uma das línguas oficiais das Nações Unidas, outra é trabalhar para que a CPLP, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, seja muito mais do que uma sigla cheia de boas intenções.