F1 ou as novas olimpíadas da bateria

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Na primeira corrida da temporada, todos os adeptos de Formula 1 estavam expectantes para perceber o que iria acontecer. As novas regulamentações da Federation Internationale de l'Automobile (FIA) trouxeram a mais significativa revolução técnica e desportiva da categoria da história recente, com motores híbridos mais focados, combustíveis 100% sustentáveis, e uma série de outras questões que o DN explicou na antecipação do Grande Prémio da Austrália, que aconteceu na semana passada.

Nessa corrida, seis carros não conseguiram terminar a prova: os dois Aston Martin, um Red Bull, um McLaren, um Cadillac e um Audi. Ninguém estranhou particularmente - apesar de ser inesperado -, mas todos quiseram (quisemos) acreditar que eram equipas e pilotos a habituarem-se a uma nova era do ‘Grande Circo’. A Mercedes, sem surpresas, foi a grande vencedora da corrida, a mostrar uma superioridade significativa face às suas concorrentes, enquanto o Red Bull do tetracampeão Max Verstappen não conseguiu melhor do que um 6.º lugar.

De olhos postos na China, para a corrida seguinte, o cenário repetiu-se: desta vez houve sete monolugares que não terminaram a prova, sendo que os McLaren nem chegaram a iniciar a corrida. Depois de assistir às penosas 56 voltas do GP da China, já se podem tirar algumas conclusões, sendo a mais relevante aquela que era também a mais temida pelos amantes da modalidade: a Fórmula 1 deixou de ser uma prova de automobilismo e passou a ser uma espécie de olimpíadas de gestão de bateria. Se nos últimos anos já tinha ficado claro que para ser um Campeão de F1 não bastava ser o melhor piloto - é preciso também ser um atleta de alta competição, com uma preparação física e mental que não era pedida antes, e é preciso ter a melhor equipa a desenvolver o melhor carro possível (também já se falou disso nestas páginas) -, agora ficou claro algo mais impressionante. É que, possivelmente, não vai ganhar este campeonato aquele que for o melhor piloto, no sentido daquele que melhor guia um monolugar. Vai ganhar este campeonato o piloto e a equipa que perceberem de que forma conseguem gerir melhor a bateria de cada carro. E isso pode significar abrandar em momentos em que faz zero sentido fazê-lo (do ponto de vista de técnica de condução) , evitar ultrapassagens ou até ver os carros a parar no meio da pista, porque os veículos têm tido tantos problemas que ainda não houve corrida em que não houvesse um a surpreender o piloto e a desligar-se ou a ter de ser retirado pela própria equipa. O que tem transformado os GP de F1 em espetáculos angustiantes - e tristes. E pouco automobilísticos.

Não é, por isso, de estranhar, que nenhuma equipa ou piloto se tenha mostrado particularmente aborrecida com o cancelamento das duas provas agendadas para o Médio Oriente (Barhain e Dubai), previstas para logo após o GP do Japão. A pausa deverá servir para voltar às fábricas e aos simuladores e tentar resolver problemas que nem deviam existir. Afinal, ter de gerir bateria numa prova que deveria ser de velocidade é, no mínimo, bizarro.

Se nada mudar, podemos estar efetivamente a assistir a uma nova era da F1... se será uma era melhor do que as anteriores, teremos de esperar muito para ver.

PS: Dito isto, foi, ainda assim, muito bonito voltar a ouvir o hino italiano no passado domingo, graças ao desempenho do segundo mais jovem piloto a ganhar um GP, Kimi Antonelli.

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