Ao conhecer o resultado das eleições húngaras de domingo, com a derrota de Viktor Orbán e o discurso de vitória de Péter Magyar, lembrei-me que se há uma capital europeia onde o mítico Danúbio se mostra com todo o esplendor é Budapeste. E na margem oriental, na parte plana da cidade que corresponde à antiga Peste (Buda destaca-se pelas colinas), o edifício do Parlamento húngaro sobressai pela beleza e, também, pela dimensão. Foi terminado em 1902, quando existia ainda o Império Austro-Húngaro e Budapeste pretendia rivalizar com Viena. Era na atual capital austríaca que vivia o imperador (também rei da Hungria), mas em Budapeste tudo era feito para que a cidade brilhasse, fosse através do imponente teatro de ópera, fosse através da construção do primeiro metropolitano da Europa Continental, ainda hoje uma das linhas em serviço, Património Mundial da UNESCO e especialmente popular entre os turistas.O metro de Budapeste data do final do século XIX, um século de afirmação da nação húngara, cansada de um lugar secundário no Império dos Habsburgos. E o Parlamento foi concluído no início de um século XX que começou bastante promissor, mas revelou-se depois trágico para os húngaros de muitas formas, desde um país recriado no final da Primeira Guerra Mundial, perdendo a maior parte do território histórico, até a um longo período comunista a seguir à Segunda Guerra Mundial, como membro do Bloco Soviético. Se em 1956 a revolta contra Moscovo falhou, a Revolução de 1989 levou finalmente ao fim do regime comunista, uma transição negociada, com as primeiras eleições livres em 1990, ainda antes da desagregação da União Soviética.. Embora orgulhosos das remotas origens nas tribos magiares, que, vindas das estepes asiáticas, se instalaram há mais de mil anos naquelas terras banhadas pelo Danúbio, os húngaros, através de uma nova classe política que incluía um jovem Orbán (nasceu em 1963), retomaram a vocação de serem parte do Ocidente. Com a democracia, chegou também a adesão à NATO, logo em 1999, e à União Europeia, em 2004. O século XX acabava bem, e o XXI prometia muito. E mesmo que a má memória de Trianon, o tratado que deixou milhões de húngaros a viver fora das novas fronteiras pós-1918, continuasse viva, novos horizontes se abriram com a integração num espaço de liberdade e de prosperidade como é a União Europeia. Os húngaros, como os checos ou os polacos ou os romenos, tudo povos com uma longa história ,embora muitas vezes subjugados por impérios, sabem-no bem.Por esta vocação Ocidental, mesmo quando Buda e Peste estavam sob domínio turco, mesmo quando Moscovo ditava ordens aos membros do Pacto de Varsóvia, nunca os húngaros deixaram de ser europeístas. E os choques constantes entre Orbán e Bruxelas nestes últimos 16 anos não puseram em causa essa realidade, mesmo que nesta sua segunda encarnação como primeiro-ministro, o liberal tivesse dado lugar ao conservador, ou ao nacionalista, ou até mesmo ao “ditador”, como muitas vezes se disse e escreveu, com exagero. A aceitação da derrota logo na noite da contagem dos votos foi um momento em que mesmo os mais críticos do líder húngaro tiveram de admitir que se relembraram do Orbán que na juventude combateu a ditadura comunista.A vitória esmagadora do Tisza de Magyar sobre o Fidesz mostrou que rumo querem os húngaros. Um rumo de maior alinhamento com os parceiros europeus, também o fim do sistema de clientelismo político que Orbán montou desde 2010 e lhe permitiu um longuíssimo período de governação. Combater a corrupção e relançar uma economia estagnada serão outras duas prioridades impostas ao novo primeiro-ministro pelo eleitorado, que deu ao antigo militante do Fidesz uma maioria parlamentar esmagadora, e responsabilidade equivalente.."Magyar tem tudo a ganhar com a reconquista da boa vontade da Comissão Europeia.".Magyar tem tudo a ganhar com a reconquista da boa vontade da Comissão Europeia, basta pensar nos fundos que desde 2004 tão importantes têm sido para a Hungria. Também a relação com os Estados Unidos será para preservar, apesar da proximidade de Donald Trump e Orbán, com o primeiro-ministro cessante a ter até direito, durante a campanha, a uma visita de apoio de JD Vance, o vice-presidente americano.Nos perfis publicados de Magyar por vezes refere-se que foi um miúdo que cresceu no período da passagem do comunismo para a democracia (nasceu em 1981) e que tinha um poster de Orbán na parede do quarto. Também é conhecido que foi um quadro do partido governamental por muitos anos, casado até há pouco tempo com uma ex- ministra da Justiça que era uma das estrelas em ascensão do Fidesz. E atribui-se a um escândalo gerado por um indulto presidencial o seu corte com Orbán e o sistema montado em redor do quase-eterno primeiro-ministro, o que o levou, em 2024, a assumir uma candidatura ao Parlamento Europeu pelo Tisza, com um excelente resultado, mas, mesmo assim, uma derrota frente ao seu antigo partido. O resto do percurso, sobretudo a vitória de dia 12, é conhecido.Veremos o que se segue na Hungria, relembrando que Magyar é um convicto conservador, que muitas das políticas de Orbán eram populares (por exemplo, travões à imigração), e que a geopolítica obrigará a uma gestão complexa da relação com a Ucrânia (apoio, mas com muitas cautelas) e com a Rússia (sem fascínio por Vladimir Putin, mas consciente da dependência do gás russo, ao ponto de dizer que não telefonará ao líder russo, mas que atenderá se este ligar).Um bom momento para avaliar Magyar, e para aprender um pouco mais sobre a alma húngara, serão as celebrações dos 70 anos da Revolução Húngara de 1956, esmagada pelos tanques soviéticos. Há fotos de alguns deles junto ao Parlamento húngaro, que neste pouco mais de um século de existência já presenciou muita História. Talvez por Budapeste estar no coração da Europa.