O cerco político e institucional em torno de Luís Neves aperta-se cada vez mais. A cada novo desenvolvimento, a sua posição no Governo parece mais frágil, não apenas pela sucessão de factos, mas pela forma como estes começam a convergir numa tenaz cuja pressão já não é possível ignorar.A decisão do Tribunal de Contas de levar o ministro a julgamento por alegadas infrações financeiras na gestão da Polícia Judiciária (PJ) acrescenta um peso difícil de suportar num ministério que vive permanentemente sob tensão. Em paralelo, a ministra da Justiça, Rita Alarcão Júdice, ordenou uma auditoria aos mandatos de Neves na PJ. Este gesto tem um significado político evidente: protege a instituição e faz uma espécie de ring fencing no Governo, transmitindo a ideia de que este tudo fez para apurar responsabilidades. Já as declarações de António José Seguro, ao pedir uma resolução rápida para preservar a integridade das instituições, deixaram claro que o Presidente da República não aceitará que o processo se arraste.. A pressão mediática também contribui para a erosão da autoridade do ministro. As novas informações divulgadas esta quinta-feira pela CNN e pelo Nascer do Sol, sobre alegadas obras realizadas pelo empreiteiro João Carvalho na casa de Álvaro Pires, diretor financeiro da PJ – desmentidas pelos visados –, alimentam a perceção generalizada de que a situação tem de ser investigada.A situação deverá agravar-se com a Comissão Parlamentar de Inquérito pedida pelo Chega. Este processo vai intensificar o escrutínio sobre Luís Neves e, também, sobre o modo de funcionamento da Polícia Judiciária, colocando à prova o mito da “super‑polícia” que foi construído ao longo dos últimos anos. A PJ habituou o país a uma imagem de competência técnica e autonomia operacional, mas, como vimos noutras ocasiões, uma Comissão de Inquérito expõe sempre fragilidades que raramente chegam ao espaço público. Tratando-se de uma força policial que lida com grupos de crime organizado, terroristas e outras ameaças, a revelação desses pormenores poderá ter um efeito muito negativo. Embora possa ser, igualmente, uma oportunidade para que se retirem lições e se corrija aquilo que estiver mal.."Com Luís Montenegro a tentar evitar uma saída forçada do acossado ministro, devido ao impacto que teria na estabilidade do Governo, o desfecho da situação poderá depender apenas do próprio Luís Neves.".Luís Neves é reconhecido como um homem determinado, que não desiste facilmente dos seus objetivos e que acredita não ter feito nada de errado. Mas só conseguirá exercer as suas funções em pleno se mantiver intacta a sua autoridade institucional. E os sinais em sentido contrário acumulam-se: o julgamento no Tribunal de Contas (pedido pelo próprio, por ter recusado pagar uma coima), a auditoria ordenada pela ministra da Justiça, as sucessivas revelações mediáticas, o desconforto político crescente e a intervenção do Presidente da República.Com Luís Montenegro a tentar evitar uma saída forçada do acossado ministro da Administração Interna, devido ao impacto que teria na estabilidade do Governo, o desfecho desta situação pode acabar por depender apenas de uma pessoa: o próprio Luís Neves. Será ele quem terá de decidir se ainda tem condições para continuar no cargo.