À espera de Luís Neves

Filipe Alves

Diretor do Diário de Notícias

Publicado a

O cerco político e institucional em torno de Luís Neves aperta-se cada vez mais. A cada novo desenvolvimento, a sua posição no Governo parece mais frágil, não apenas pela sucessão de factos, mas pela forma como estes começam a convergir numa tenaz cuja pressão já não é possível ignorar.

A decisão do Tribunal de Contas de levar o ministro a julgamento por alegadas infrações financeiras na gestão da Polícia Judiciária (PJ) acrescenta um peso difícil de suportar num ministério que vive permanentemente sob tensão. Em paralelo, a ministra da Justiça, Rita Alarcão Júdice, ordenou uma auditoria aos mandatos de Neves na PJ. Este gesto tem um significado político evidente: protege a instituição e faz uma espécie de ring fencing no Governo, transmitindo a ideia de que este tudo fez para apurar responsabilidades. Já as declarações de António José Seguro, ao pedir uma resolução rápida para preservar a integridade das instituições, deixaram claro que o Presidente da República não aceitará que o processo se arraste.

"A ministra da Justiça, Rita Alarcão Júdice, ordenou uma auditoria aos mandatos de Neves na PJ. Este gesto tem um significado político evidente: protege a instituição e faz uma espécie de 'ring fencing' no Governo (...)."
"A ministra da Justiça, Rita Alarcão Júdice, ordenou uma auditoria aos mandatos de Neves na PJ. Este gesto tem um significado político evidente: protege a instituição e faz uma espécie de 'ring fencing' no Governo (...)." FOTO: Reinaldo Rodrigues

A pressão mediática também contribui para a erosão da autoridade do ministro. As novas informações divulgadas esta quinta-feira pela CNN e pelo Nascer do Sol, sobre alegadas obras realizadas pelo empreiteiro João Carvalho na casa de Álvaro Pires, diretor financeiro da PJ – desmentidas pelos visados –, alimentam a perceção generalizada de que a situação tem de ser investigada.

A situação deverá agravar-se com a Comissão Parlamentar de Inquérito pedida pelo Chega. Este processo vai intensificar o escrutínio sobre Luís Neves e, também, sobre o modo de funcionamento da Polícia Judiciária, colocando à prova o mito da “super‑polícia” que foi construído ao longo dos últimos anos.

A PJ habituou o país a uma imagem de competência técnica e autonomia operacional, mas, como vimos noutras ocasiões, uma Comissão de Inquérito expõe sempre fragilidades que raramente chegam ao espaço público. Tratando-se de uma força policial que lida com grupos de crime organizado, terroristas e outras ameaças, a revelação desses pormenores poderá ter um efeito muito negativo. Embora possa ser, igualmente, uma oportunidade para que se retirem lições e se corrija aquilo que estiver mal.

"Com Luís Montenegro a tentar evitar uma saída forçada do acossado ministro, devido ao impacto que teria na estabilidade do Governo, o desfecho da situação poderá depender apenas do próprio Luís Neves."

Luís Neves é reconhecido como um homem determinado, que não desiste facilmente dos seus objetivos e que acredita não ter feito nada de errado. Mas só conseguirá exercer as suas funções em pleno se mantiver intacta a sua autoridade institucional. E os sinais em sentido contrário acumulam-se: o julgamento no Tribunal de Contas (pedido pelo próprio, por ter recusado pagar uma coima), a auditoria ordenada pela ministra da Justiça, as sucessivas revelações mediáticas, o desconforto político crescente e a intervenção do Presidente da República.

Com Luís Montenegro a tentar evitar uma saída forçada do acossado ministro da Administração Interna, devido ao impacto que teria na estabilidade do Governo, o desfecho desta situação pode acabar por depender apenas de uma pessoa: o próprio Luís Neves. Será ele quem terá de decidir se ainda tem condições para continuar no cargo.

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