Este termo (em português “merdificação”, o qual tive o bom senso de não colocar logo no título) não é uma brincadeira, correspondendo a um conceito desenvolvido desde 2022 pelo autor e jornalista canadiano Cory Doctorow para descrever o declínio e transformação do serviço das plataformas digitais e redes sociais de algo inovador para meras ferramentas de extração do valor comercial, tanto dos seus utilizadores, como dos próprios clientes, com a preocupação nuclear de aumentar os lucros dos accionistas das empresas-mãe.Depois de alguns artigos na imprensa, o conceito mereceu explicação detalhada no livro Enshittification: Why Everything Suddenly Got Worse and What to Do About It (2025), no qual Doctorow explica como as plataformas que nos pareciam oferecer um mundo novo de serviços e funcionalidades, de horizontes quase ilimitados, depois de desenvolverem um fenómeno de adição nos seus utilizadores e de comercialização dos seus dados, acabaram por se tornar engrenagens de obtenção de lucros crescentes, sem qualquer preocupação social a par da progressiva degradação dos seus serviços.Ao ler a descrição do processo de “merdificação” de plataformas digitais que, pelo menos em parte, têm feito parte do meu quotidiano nas últimas décadas, não pude deixar de notar que algo parecido se adivinha, por exemplo, na relação entre as múltiplas plataformas de Inteligência Artificial e a Educação.Porque os sinais estão todos lá: temos a “oferta” de serviços inovadores, que parecem permitir-nos enormes ganhos de eficiência e tempo na preparação de tarefas quotidianas, na preparação de materiais à criação de ferramentas para a avaliação dos conhecimentos, passando por capacidades imensas de pesquisa e produção de grafismos atractivos; temos um grupo de profetas de um novo mundo digital, que nos permitirá uma transformação radical de um quotidiano de trabalho burocrático que nos sobrecarrega. Mas também temos o início do processo de extracção de valor, material e intelectual, porque tudo o que pedimos para fazer a essas plataformas, todos os materiais que lhes facultamos, as avaliações que fazemos, as correcções que introduzimos nas instruções iniciais estão a permitir o seu aperfeiçoamento e a criação de gigantescas bases de dados.O mais preocupante é que se nota o crescimento - e nem sequer falo apenas dos alunos e da crescente preguiça em ir além do aperfeiçoamento de prompts, pedidos a uma plataforma para aplicar noutra - do fenómeno aditivo, viciante, nascido da rapidez da recompensa em relação às solicitações. Até que a dependência se instala e se torna quase inconcebível deixar de usar as ferramentas que fazem tudo por nós, que nos dão uma aparência de “libertação”, quando cada vez mais nos aprisionam. O que, no caso da Educação, significa o definhar do que sempre a distinguiu, o seu caráter de transmissão humana de competências, saberes, até de emoções. Tudo se torna um simulacro do qual parece impossível escapar. E é esse o momento em que tudo se merdifica. Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico