Em Lisboa circula Moeda falsa

Davide Amado

Presidente da Concelhia do PS de Lisboa

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Se cada facto alternativo pagasse taxa turística, a Câmara de Lisboa nadava em dinheiro. Em cinco anos, Carlos Moedas juntou uma coleção que merece visita guiada. A entrada é livre.

A primeira sala é a das bicicletas. Num vídeo, Moedas contava 88km de rede ciclável no primeiro mandato; um mês depois, na Assembleia Municipal, eram mais de 90. A rede cresce ao microfone. Os dados da própria Câmara contam 72, dos quais 53 em zonas “30+Bici”, onde a bicicleta divide a faixa com os carros. De acordo com o Polígrafo, Moedas tem apenas 13,2km num mandato, enquanto Medina concretizou 52,5km em período homologo.

Na sala ao lado está a Europa. Moedas garantiu que não havia outra cidade europeia onde 17% da população andasse de graça nos transportes. Tallinn oferece-os a todos os residentes desde 2013. O Luxemburgo, ao país inteiro, desde 2020. Na geografia do presidente, a Estónia fica noutro continente.

Há ainda a peça comovente. Quando chegou à Câmara, contou, havia quase cem tendas à volta da Igreja dos Anjos, e ajudou aquelas pessoas uma a uma. Em 2021 não havia lá nenhuma: surgiram em 2023. A Câmara emendou para 200, espalhadas pela cidade. Falhou o número, o sítio e o ano. A emoção estava certa.

Na ala do mérito alheio, Moedas reclamou ter pagado, pela primeira vez, o subsídio de insalubridade à higiene urbana. Pagou, sim: o decreto do Governo de António Costa saiu menos de um mês depois de ele tomar posse. É o carteiro a reclamar a autoria das cartas. Também mandou a Polícia Municipal deter suspeitos em flagrante delito, o que a lei já permite a qualquer cidadão. Ao leitor, por exemplo.

Na ala dos culpados, o PS bloqueou a requalificação da Tapada das Necessidades numa reunião que Moedas encerrou antes de votar. O PS foi a uma “manifestação contra a polícia” que era uma marcha contra o racismo. O Bloco deixou disparar o Alojamento Local: a lei que permitiu travá-lo passou em 2018 com o PSD contra. A bandeira LGBT não subiu à fachada porque “não é o Carlos Moedas, é a lei”. A lei nem estava em vigor. Moedas cumpre leis antes de existirem.

A última sala não tem graça. Depois da tragédia do Elevador da Glória, que matou 16 pessoas, Moedas recusou imitar a demissão de Jorge Coelho, insinuando que este fora avisado dos problemas da ponte de Entre-os-Rios. Coelho sabia de danos no pavimento, enquanto que a ponte caiu por erosão das fundações, que desconhecia. Moedas usou um homem que já não pode responder para não ter de responder ele. Em 2025 garantiu ter contactado todas as famílias das vítimas. Descoberta a mentira, em 2026, afirmava que a lei não lhe dava acesso aos contactos.

Chama-se a isto populismo, ainda que de gravata e sotaque de Bruxelas. Não grita. Sorri, embeleza, arranja culpados e fica com o mérito dos outros. Moedas, o pior Presidente da Câmara de Lisboa desde o 25 de Abril, mas também o menos escrutinado, gosta de dizer que não é ele, é a lei. Os factos invertem-lhe a frase. Não é a lei. É o Carlos Moedas.

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