Em caso de dúvida, estudem tecnologia

Mauro Xavier

Partner da PwC, Líder da Microsoft Alliance EMEA

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Boa sorte a todos os jovens que começam agora os exames de acesso ao ensino superior, e também às suas famílias. É uma fase exigente, feita de ansiedade, expectativa e escolhas que parecem maiores do que deviam. Nos últimos meses, muitos amigos e conhecidos me têm feito a mesma pergunta em nome dos filhos. Ainda vale a pena estudar informática quando a inteligência artificial já escreve código?

A minha resposta é sim, com convicção. Talvez devamos formular melhor a pergunta. O que está em causa já ultrapassa a informática entendida apenas como programação. Está em causa estudar tecnologia como uma linguagem essencial para compreender, construir e decidir no mundo que aí vem.

Durante décadas, a profissão valorizou transformar uma ideia em código rigoroso. Esse saber continua a importar. A inteligência artificial reduziu muito o custo de produzir código. Um estudante gera hoje em minutos o que antes exigia horas de tentativa e erro. Para alguns pais, isto parece um risco. Para os alunos mais curiosos, pode ser uma oportunidade.

Quando a execução fica mais rápida, ganha importância a qualidade da pergunta. O valor passa para perceber o problema, desenhar o sistema, avaliar riscos e escolher o que deve ser construído. Um sistema de pagamentos, uma plataforma hospitalar ou uma aplicação bancária dependem de arquitetura, segurança, privacidade, regulação e resiliência. A IA pode sugerir uma solução técnica. Não assume as consequências se falhar. Alguém tem de compreender o todo.

Também está a mudar a relação entre tecnologia e negócio. O modelo em que uns definiam o que fazer e outros tratavam da execução será cada vez menos suficiente. Os profissionais mais valiosos serão os que entendem o cliente, o sector e as restrições reais, dominando a linguagem técnica.

As universidades também terão de rever prioridades. Menos sintaxe isolada, mais arquitetura, dados, cibersegurança, IA, ética, produto e projetos reais. A tecnologia vai atravessar saúde, banca, energia, indústria, educação, administração pública ou o desporto. Quem decidir nestes sectores terá de compreender o seu potencial, sabendo onde cria valor, onde aumenta risco e onde muda o funcionamento de uma organização.

Estudar tecnologia continua a ser uma excelente decisão, desde que seja feito com curiosidade, rigor e sentido prático. Aos pais, a pergunta decisiva é quem vai dirigir a IA, validar o seu trabalho e decidir onde deve ser aplicada. Os jovens que apenas executarem instruções estarão mais expostos. Os que souberem ligar tecnologia, contexto e resolução de problemas terão mais oportunidades. No mundo que aí vem, a tecnologia deixará de ser uma carreira entre muitas. Será uma condição para liderar em quase todos os sectores.

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