Quando se discutem os poderes dos ecrãs televisivos, quase tudo se esgota no modo como neles se “representa” o mundo à nossa volta. Assim se recalca uma questão que passou a ser vital nas nossas vidas, da cena política até à organização da intimidade. A saber: como é que esses ecrãs determinam e, por vezes, comandam a organização do próprio mundo?Há mais de meio século, Roberto Rossellini, intransigente no seu humanismo clássico, chamou a atenção para a gravidade de tal questão. Em 1975, Jean-Luc Godard realizou o seu admirável Número Dois, sobre a reconfiguração das nossas vidas através da ditadura dos ecrãs - eis um filme que deveria servir de referência pedagógica para os programadores que forçam a televisão a funcionar como um tribunal “popular” enraizado no menosprezo pela inteligência dos espectadores.Recentemente, temos assistido ao triunfo de um conceito “decorativo” dos ecrãs - dos grandes ecrãs, entenda-se, consagrados com a designação anglo-saxónica de "video walls”. Aliás, seria interessante dispensar a caução inglesa, não recear a crueza da língua portuguesa e chamar-lhes aquilo que, realmente, são: “paredes de vídeo”. Ou seja: objetos que, ao exporem imagens, dão a ver, tanto quanto impedem de ver.Claro que há utilizações interessantes e, sobretudo, criativas das “video walls”, em particular quando se transmitem dados multifacetados sobre acontecimentos, como são as eleições (mesmo quando a manipulação técnica das imagens se torna uma dificuldade para o próprio locutor). Há até casos, sobretudo na abordagem do futebol, em que o grande ecrã pode ser aplicado como um magnífico instrumento de análise - observe-se, por exemplo, a agilidade de Thierry Henry a usar tais recursos na CBS Sports (e imagine-se como seria fascinante poder ter os mesmos recursos para conhecer as formas de construção do espaço/tempo em cineastas como Orson Welles ou Steven Spielberg).. Muitas vezes falta imaginação para rentabilizar as potencialidades das “video walls”. Porquê? Porque predominam dois conceitos banais. Primeiro, o seu tratamento como se fosse um cartaz de rua - coloca-se lá um rosto, um nome ou uma frase breve e alguém fica ali a perorar durante meia dúzia de minutos (o que, além do mais, faz sentir o incómodo físico, ou mesmo o cansaço, dos que estão obrigados a manter-se de pé numa adoração beata do ecrã). Depois, a gestão tecnocrática da “video wall” como uma coleção de folhas Excel (expostas de forma breve e, por isso mesmo, quase sempre ilegíveis).O programa Les Observateurs, no canal France 24 (versão em francês), será um contraponto estimulante que vale a pena citar. Eis um programa contrário a uma atitude corrente (a meu ver, irresponsável) de alguns contextos televisivos em que as imagens de telemóveis anónimos são exibidas como matérias “automáticas” de informação. Em Les Observateurs, elabora-se informação a partir dessas imagens, sopesando a sua possível complementaridade ou as suas eventuais contradições.No limite mais obsceno de tudo isto, deparamos com formas de instrumentalização pueril das imagens em que o ecrã não tem existência própria, nem sequer lhe é reconhecida verdadeira vocação informativa. Em termos humanos (e humanistas, para não nos esquecermos da herança de Rossellini), confunde-me que haja comentadores das guerras que aceitem estar “enquadrados” por um ecrã em que se repetem continuamente, vezes sem conta enquanto vão falando, algumas breves imagens de um qualquer cenário reduzido a ruínas, por vezes com sinais de cadáveres - será que não os incomoda o facto de, mesmo através de análises brilhantes, estarem a favorecer uma linguagem sonâmbula que contribui para a desvalorização social e simbólica das próprias imagens?Há outra maneira de dizer tudo isto: no território televisivo, apresentado e celebrado (entenda-se: autocelebrado) como o paraíso da informação, é cada vez mais escasso, muitas vezes recalcado, o pensamento sobre os poderes específicos de cada ecrã. Não por acaso, esse esvaziamento cognitivo tem sido acompanhado pela obliteração do cinema como a grande arte popular herdada do século XX.