'East-West Pipeline'. O oleoduto que voltou ao centro do mundo

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Num momento de elevada tensão geopolítica no Médio Oriente, marcado pelo conflito entre o Irão, Israel e os Estados Unidos, uma infraestrutura construída há mais de quatro décadas voltou a ganhar protagonismo: o East-West Pipeline, também conhecido como Petroline (oleoduto). Este oleoduto da Arábia Saudita tornou-se, desde março deste ano, uma peça fundamental para a estabilidade dos mercados energéticos globais, com impacto direto no abastecimento de petróleo à Europa.

Este oleoduto, com cerca de 1200 quilómetros de extensão, atravessa o deserto da Península Arábica, ligando os vastos campos petrolíferos do leste do país ao porto de Yanbu, no Mar Vermelho. Construído na década de 1980, durante a guerra Irão-Iraque, o seu objetivo inicial era precisamente permitir à Arábia Saudita exportar o seu petróleo contornando o Golfo Pérsico e o sensível Estreito de Ormuz.

Convém lembrar que o Estreito de Ormuz, uma das artérias energéticas mais importantes e mais vulneráveis do planeta, entre o Irão e Omã, serve como saída obrigatória para a maior parte do petróleo produzido nos países deste Golfo. Antes do conflito atual, por ele transitavam cerca de 20 milhões de barris por dia de crude e produtos petrolíferos, o equivalente a aproximadamente um quinto do petróleo mundial e a um quarto do comércio marítimo global de petróleo. Desde o final de fevereiro de 2026, com o escalar da guerra e da decisão iraniana de impor um bloqueio seletivo, o tráfego marítimo teve uma redução superior a 90%, fazendo disparar os preços do Brent para níveis acima dos 100 dólares.

É precisamente a capacidade de contornar este estrangulamento que torna o East-West Pipeline agora indispensável. Em meados de março de 2026, o oleoduto atingiu a sua capacidade máxima de sete milhões de barris por dia, graças à conversão temporária de linhas paralelas de líquidos de gás natural, um patamar que inclui tanto crude, como produtos refinados. Dos sete milhões de barris que atualmente circulam pelo Petroline, cerca de dois milhões destinam-se a refinarias sauditas na costa ocidental, enquanto os restantes cinco milhões são exportados através do porto de Yanbu.

Com esta alternativa, o petróleo que chega ao Mar Vermelho toma duas rotas principais a partir de Yanbu.  Via norte, através do Canal de Suez, rumo aos mercados europeus e mediterrânicos, ou para sul, atravessando o Bab el-Mandeb em direção ao Oceano Índico.

O Canal de Suez, que liga o Mar Vermelho ao Mediterrâneo, permite uma rota mais curta e económica para a Europa, evitando a circum-navegação de África. No entanto, enfrenta limitações técnicas, pois nem todos os navios petroleiros conseguem atravessá-lo, o que obriga a uma redistribuição e consequentemente a custos adicionais. Porém, o tráfego de petroleiros pelo Suez aumentou significativamente em mais 47% face ao ano de 2025, refletindo a nova dependência da rota alternativa saudita, embora o volume total de tráfego no canal continue cerca de 60% abaixo dos níveis pré-crise do Mar Vermelho.

No entanto, embora o velho continente tenha reduzido drasticamente a sua dependência do petróleo do Médio Oriente nas últimas décadas, graças à diversificação para fontes norueguesas, americanas, africanas e à crescente penetração das energias renováveis, o crude saudita continua a desempenhar um papel relevante em vários países. O East-West Pipeline tem funcionado, assim, como uma verdadeira “válvula de segurança”, ajudando a evitar uma rutura imediata de abastecimento e a mitigar o choque inicial nos preços. Contudo, importa sublinhar que esta solução está longe de ser suficiente.

Do ponto de vista económico, os efeitos já se fazem sentir. Os preços do petróleo dispararam, penalizando as famílias europeias, a indústria e os orçamentos públicos. Estimativas indicam que uma crise prolongada poderá custar à União Europeia milhares de milhões de euros adicionais em importações de energia, agravando pressões inflacionistas.

Perante este cenário, analistas e decisores políticos defendem com maior urgência a necessidade de reforçar a resiliência energética europeia, acelerando a transição energética. A crise atual demonstra de forma dramática os riscos de uma economia ainda excessivamente dependente de hidrocarbonetos e de rotas marítimas concentradas em regiões instáveis.

Entre as medidas mais discutidas contam-se em primeiro lugar a diversificação acelerada de fornecedores, com maior aposta em petróleo e gás natural liquefeito (GNL) dos Estados Unidos, do Canadá, da Noruega e de países africanos. Seguem-se o reforço das infraestruturas de armazenamento e expansão de terminais de GNL, como também o investimento massivo em energias renováveis. A longo prazo, reduzir a dependência de petróleo significa diminuir a relevância estratégica destes choke points (Ormuz, Bab el-Mandeb e Suez), tornando a Europa menos vulnerável a choques geopolíticos.

Em suma, embora o oleoduto saudita contribua para mitigar os efeitos mais imediatos de uma crise energética, não elimina a possibilidade de um aumento sustentado dos preços, nem de dificuldades no abastecimento. A Europa continua, por isso, exposta a choques externos, ainda que parcialmente protegida por esta alternativa logística. O East-West Pipeline não é uma solução milagrosa, nem uma substituição completa da rota tradicional do Estreito de Ormuz. É uma peça-chave que, neste momento de crise, tem ajudado a evitar o pior cenário de rutura total de abastecimento.

Num mundo cada vez mais interdependente e volátil, infraestruturas como esta recordam-nos como a geografia, a engenharia e a geopolítica continuam a moldar o equilíbrio energético global.

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