E agora, José?

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As décadas dos países não são como as décadas das pessoas. As décadas dos países só ganhavam nome e fama muito tempo depois e, delas, ainda se fala algum tempo depois. As décadas das pessoas, agora, antes que sejam substituídas rapidamente por outras, valem durante uns dias. Até serem esquecidas e substituídas pelo próximo entusiasmo, rápido, decisivo, total.

Até há uns tempos, as décadas dos países - de muitos, de poucos ou até a ideia da pretensão absurda de “todos” - eram feitas e denominadas algum tempo depois, por pessoas que escreviam livros, que davam nomes, que atribuíam qualidades únicas a tempos sucessivos e banais como todos os outros.

Historiadores e filósofos falavam dos anos 60, ah!, os anos 60... Falavam dos anos 20, ah!, os anos 20... Falavam da década da guerra, da década da paz, da década do fim do Colonialismo, da década da Guerra Fria, da década da paz global e definitiva, da década do triunfo do capitalismo e do fim da história. Sempre com a mesma certeza decimal, aquela que durava até terminarem, pelo menos, o seu dever de contar uma história e até irem contar uma nova para outro lado, do outro lado, onde já não os ouvimos.

Agora já ninguém sabe como funciona. O tempo está em crise - e deve-se ter escrito isto mesmo, pelo menos, mil vezes, em diferentes tempos, com a mesma convicção inaugural.

Acabou a década de um Presidente português, o mais próximo que temos de uma escolha afim de teocrática, com todos os portugueses eleitores a escavarem as entranhas de um animal para descobrir a verdade, como se dizia que era feito na Roma antiga, esse tempo em que as décadas são chamadas de séculos, as repúblicas de impérios e de onde tudo parece que nos advém. Melhor podia ser só olhar para o voo dos pássaros e nele descobrir a vontade dos deuses, essa coisa absolutamente bela que, sim, também Roma nos deixou, pelo menos como fugaz historieta para um jantar mais distendido. Acabou a década, viva a década. A realeza republicana é igualmente transitória e absoluta, como todos os poderes.

E agora, José? “E agora, José?”, quando se foi o seu comparsa paralelo. Sim, do Cardoso Pires, e antes do Drummond de Andrade, e até a propósito do Lobo Antunes, esse grande descritor de coisas. Isso mesmo, nem mais, nem menos, na medida certa da pergunta e da dúvida legítima porque eterna e sem interesse absolutamente nenhum.

“E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? E agora, você? Você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? E agora, José?”

Sim, acabou a década, acabou a festa. Está tudo bem. Ainda há boca, ainda há língua, ainda há palavras. Há sangue, mais uns tempos. Está tudo bem, mesmo que a memória acabe por entre os dias mal ditos na peninha de quem escreve.

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