Do Nestum às portagens. Não há sol que nos valha

Pedro Sequeira

Editor-executivo do Diário de Notícias

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A vila de Vianden, no Luxemburgo, cortada em dois pelo vale do rio Our, é um autêntico cartão postal, com o seu castelo medieval, construído entre os séculos XI e XIV, a dominar a paisagem do alto de um monte. É também, sem surpresa, uma vila onde é relativamente fácil escutar o português a ser falado na rua, ou não fosse o Luxemburgo um dos principais destinos da emigração nacional – vivem no Grão-Ducado cerca de 90 mil portugueses, o equivalente a aproximadamente 14% da população total do país. A surpresa, pelo menos para quem ali se desloca pela primeira vez vindo de Portugal, está noutros detalhes.

Sabendo-se que o salário mínimo no Luxemburgo se situa, atualmente, nos 2700 euros (um dos mais altos da UE) e que em Portugal esse valor está nos 920 euros, confesso que fiquei surpreendido quando abasteci o carro com gasolina 95 e paguei 1,74 euros por litro, quando em Portugal, nessa semana, o preço médio era de 1,94 euros. A principal explicação para a diferença de preços está nos impostos que um e outro Estado cobram nos combustíveis, influenciando o preço final para o consumidor, sendo que o Luxemburgo é dos que menos taxas aplica na Europa, o que leva a que os postos locais também sejam procurados por clientes de países fronteiriços como a Alemanha, França e Bélgica.

Além disso, o IVA luxemburguês é dos mais baixos da UE, existindo até a chamada “taxa super-reduzida” de 3% que é aplicada a vários bens essenciais, incluindo medicamentos e alimentação. É o que torna possível, por exemplo, pagar 37 euros por uma refeição ligeira, mas completa, para quatro pessoas (preço em linha ou até inferior ao que se encontra em Portugal) ou entrar numa mercearia gerida por portugueses, com todo o tipo de produtos nacionais, e ver que o típico Nestum com mel era vendido a 2,35 euros a caixa, um valor abaixo do que se paga por cá em, pelo menos, duas das maiores cadeias de distribuição do país, como pude constatar, estimulado pela curiosidade, após breve pesquisa online.

E no que é que isto se traduz? Seja a explicação mais ou menos racional, a verdade é que os cidadãos portugueses vivem num patamar financeiro muito inferior a milhões de congéneres europeus. Seguem incapacitados de fazer poupança e outros investimentos no seu bem estar pessoal ou familiar, porque a subida dos salários não acompanha o ritmo do aumento do custo de vida. E não se trata apenas da comparação com o Luxemburgo. Vejamos outro caso: nos últimos dias, conduzi por autoestradas de cinco países diferentes e a despesa com portagens foi redondinha – 0 (zero) euros. Quantos portugueses gostariam de dizer o mesmo?

É neste somatório de razões económicas, comparadas com outros países europeus, que o campo se torna inclinado a nosso desfavor quando se tenta cativar os jovens a permanecer no país. Há sempre quem recorde que, pelo menos, temos um clima ameno e, com tantos dias de exposição solar, uma fonte inesgotável e à borla de vitamina D. Se ao menos o sol nos pagasse as portagens...

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