O Papa Leão XIV, no início do seu pontificado, explicou que tinha escolhido o nome Leão em atenção ao seu predecessor, Leão XIII, o “papa social” que condenou os excessos do liberalismo capitalista e do socialismo marxista nos finais do século XIX, quando as “coisas novas” eram a Revolução Industrial e as suas consequências económico-sociais.Leão XIV foi eleito sucessor de S. Pedro num momento difícil para a Igreja e para o mundo, em que se temia que um papa “muito à esquerda” ou “muito à direita” (cedendo ao jargão político-jornalístico corrente) pudesse desencadear um “cisma”.Leão quer ser um papa de unidade, numa Igreja de homens e mulheres com fé, mas também com paixões, políticas e outras, que hoje tendem a radicalizar-se. Essa foi também a conjuntura da Rerum Novarum de Leão XIII, há 135 anos, embora as grandes tensões político-sociais tivessem a sua mais dramática explosão depois da Grande Guerra e da revolução soviética de Outubro de 1917, que criaria o primeiro Estado socialista da História, bem diferente das sonhadas utopias socialistas. A brutalidade dos bolcheviques, a sua impiedosa supressão dos opositores como “inimigos do povo”, gerou reacções também brutais que levaram a um estado de excepção e a um surto ditatorial na Europa.As “coisas novas” de que fala a Magnifica Humanitas de Leão XIV têm que ver com “a salvaguarda da pessoa humana na era da Inteligência Artificial”, como reza o subtítulo; e a encíclica começa assim:“A Magnífica Humanidade criada por Deus encontra-se hoje perante uma escolha decisiva: erguer uma nova Torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a Humanidade habitem juntos.”E reclamando-se do “Magistério dos Antecessores”, o Papa trata dos problemas postos pelas novas tecnologias e da ambiguidade que as acompanha.Hoje “as coisas novas” estão sobretudo ligadas à Robótica e à Inteligência Artificial. Não deixando de celebrar o lado positivo que sempre assumem as novas tecnologias (foram essenciais, por exemplo, para criar as condições que permitiram o fim da escravatura), Leão XIV alerta para os perigos que também sempre representam – as profundas diferenças e abismos criados entre quem as possui, controla, e quem não as tem, nem as pode ter.E a Inteligência Artificial, além de poder substituir o trabalho humano em muitas profissões e actividades, traz uma simulação de humanidade e, para quem a produz e domina, infinitas oportunidades de orientar e manipular os outros, a maioria. É nesse sentido que Leão XIV nos alerta para os novos dilemas e interrogações que estas “coisas novas”, a par dos benefícios, também nos trazem.E contra os novos “deuses”, já não de máquinas visíveis, mas de algoritmos e das suas múltiplas cabeças e mãos invisíveis, engendrados para substituir e superar a nossa humanidade, propõe-nos a eterna verdade e a eterna novidade de Cristo.E termina com palavras de esperança:“Na humilde fidelidade de cada dia, também a era da Inteligência Artificial pode tornar-se uma etapa em que o Espírito faz amadurecer a civilização do amor na nossa vida: o Senhor continua a renovar todas as coisas e mantém aberta, em cada época, a possibilidade de se tornar história de salvação à luz da Encarnação (…) de modo que possamos testemunhar a beleza de uma magnifica humanidade habitada por Deus.” O autor escreve de acordo com a antiga ortografia