Deus e a criação humana

Manuel José Guerreiro

Presidente da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedras

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Ao longo deste tempo em que “conversamos”, pelo menos assim o imagino, tenho escrito sobre o cooperativismo e a economia social, mas também acerca do país, do mundo, da condição humana e da procura do que nos transcende.

Proponho-vos hoje na data que assina-lo a publicação da minha quinquagésima crónica, um exercício que considero essencial: a importância de Deus, da necessidade do transcendente, dos fundamentos da espiritualidade e da razão para a Igreja Católica continuar a ser vital na procura que faço dos melhores caminhos – também no meu trabalho como presidente de uma instituição financeira. Somos corpo, alma e espírito. Estas são as nossas dimensões, três palavras que nos definem, mesmo que usemos outras para substituir estas. Ser humanos na nossa plenitude implica a capacidade de olhar para lá do que se vê, de ter uma relação com o que transcende os nossos sentidos, com o que nos transcende. É uma questão de fé, dir-me-ão agnósticos e ateus. Certo, verdade. Porém, a transcendência não depende da fé ou sequer da relação que temos ou não temos com Deus. Não há fé sem o respeito por uma ideia de transcendência. Mas o sentido de transcendência pode existir sem fé. É uma questão interessante, a fé não se manifesta em toda a sua dimensão quando a vida é previsível e nos oferece pesca farta e a água não nos foge das margens. Só quando as pedras nos obrigam a tropeçar ou sentimos uma perda irreparável é que percebemos a qualidade de que é feita a fé que trazemos. A criatividade humana é um ato de transcendência. Gaudi, que era genial e ateu, afirmou ter visto Deus quando a sua Sagrada Família ganhou vida fora dos esquissos. Ou Bach, o que talvez mais se tenha aproximado de uma ideia de Belo, mas cuja vida foi um inferno, com mortes de filhos, dificuldades económicas, sofrimento físico e existencial. Sim, a criação é uma porta para o que nos transcende, um pacto com o divino, mesmo quando ele não existe em quem cria. Essa tem sido a batalha do Cardeal Tolentino que, no Vaticano, reforçado por Francisco e agora pelo Papa Leão, tem estimulado encontros com artistas e a Igreja. Nascemos do ventre da nossa mãe, mas não nos lembramos, transcende-nos. Depois vivemos no ventre do mundo, a nossa dimensão humana. Falava da fé e das pedras no caminho, é melhor usar a palavra Inverno. O que nos vai acontecendo não é uma linha reta, há movimento, vitórias e derrotas, invernos e primaveras. Há frio na nossa vida, desesperança, dificuldades, também na fé. Só quem tem uma visão de transcendência mantém a fé depois dos invernos. Porquê a religião? Porquê a Igreja Católica? Cada um de nós poderá ter a sua resposta, a minha é simples: porque a sua mensagem nunca deixou de ser atual – esperança, fraternidade e vida. No Novo Testamento, numa das mais bonitas passagens, Jesus diz a um homem que acreditava não ter tempo para abrir o seu coração ao que o transcendia: “Segue-me e deixa os mortos sepultar os seus mortos”. O mesmo que dizer, deixa os que não têm uma vida espiritual tratarem das obrigações terrenas. Cícero, que morreu antes de Jesus nascer, dizia que “a gratidão não é apenas a maior de todas as virtudes, mas a mãe de todas as outras”. É daí que tudo nasce na nossa relação com o mundo e com os outros, a empatia, a solidariedade, o cooperativismo. O ego não é criativo, é a ausência do outro. A vida é o caminho, dá-nos a possibilidade de descobrir o espiritual, de criar raízes, amizades, obras de arte. Nada disso depende da saúde, é o que está para lá da saúde, é a beleza que não está acessível a quem não caminha, mas que existe. Numa instituição financeira cooperativa é disso que se trata, é sempre o outro que conta, é sempre a responsabilidade que determina o sentido do que se faz. Quando nos confiam o seu dinheiro temos várias responsabilidades: perante quem confia, perante a comunidade, perante nós próprios e perante o que nos transcende. As dimensões humana e da transcendência permitem-nos encontrar Deus no Outro, e é este o sentido da vida e o único projecto que vale a pena ser vivido. Só esses olhos permitem enxergar a beleza que ninguém vê e criar novas dimensões que superam as crises existenciais materiais que nos assolam por estes tempos. Hoje mais que nunca a ideia de Deus e de Bem têm actualidade e futuro.

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