Assistimos, após décadas de recorrentes retornos ao debate, ao regresso da proposta, ao que parece com a chancela deste Governo, de fusão dos dois primeiros ciclos de escolaridade num único de seis anos. Ideia que paira desde as últimas décadas do século XX, voltando agora porque alegadamente assim se faz em outros países da Europa, sem qualquer demonstração empírica da sua validade e muitos problemas práticos a resolver: desde a reconfiguração dos grupos de recrutamento (que nem está em discussão) a uma inadaptação da rede escolar (excepção feita às chamadas Escolas Básica Integradas), passando pela actual revisão das aprendizagens essenciais das diferentes disciplinas, que será necessário re-rever, caso a ideia siga em frente.Por isso, uma pessoa sensata deixará essa discussão para quando os proponentes começarem a bater com as cabeças nos muros que estão à vista de toda a gente.Prefiro abordar um tema que me parece de muito maior urgência, até porque é uma realidade que as escolas são obrigadas a enfrentar cada vez mais, com meios escassos e autonomia minguada para as soluções desejáveis, e que passa pela integração tardia de alunos provenientes do estrangeiro, nem sequer estando a pensar necessariamente nos que chegam de países com outras línguas oficiais, pois essa é uma situação ainda mais dramática que não, há mediador por agrupamento que resolva.Refiro-me a alunos que, embora de países com o Português como língua oficial, têm um calendário ou um currículo diverso do nosso e que quando chegam ao nosso Sistema de Ensino já com o ano lectivo bem avançado, têm uma enorme dificuldade de enquadramento, quando são, literalmente, “despejados” em turmas com um trabalho desenvolvido ao longo de meses, não havendo boa vontade que permita - tirando eventuais casos pontuais - acolher os recém-chegados do modo mais adequado às suas necessidades.Identifico apenas duas das situações mais evidentes, para as quais o “despejo” dos alunos no Sistema, tal como é praticado, é um equívoco que os prejudica e, quando associado à pressão para lhes assegurar sucesso em nome de uma “inclusão” decretada, incentiva práticas que apenas mascaram os problemas (pré)-existentes.A primeira, é a dos alunos que chegam a Portugal com um currículo com uma estrutura diferente da nossa, com disciplinas diferentes, conteúdos diferentes e até modelos de avaliação diferentes. De que adianta colocar um aluno numa turma de 6.º ou 8.º ano, por exemplo, em disciplinas que ele nunca teve no seu percurso escolar? Já recebi alunos que nunca tiveram História, Inglês ou mesmo a “nossa” Geografia, mas que, com base nas suas certificações originais, foram colocados em turmas desses anos, sem qualquer período de preparação do tipo “ano zero”.Outra situação é a dos alunos que chegam de países com calendários escolares diferentes, cujo início do ano lectivo é em Fevereiro (Brasil, Moçambique), quando por cá vamos a meio do 2.º período ou a iniciar o 2.º semestre, pelo que a sua integração é uma perfeita utopia, em especial quando associada à acima referida diversidade curricular e de conteúdos.Se a integração destas crianças e jovens, à chegada, no nosso Sistema Escolar é um imperativo, não o é menos que isso seja feito de forma adequada e que lhes seja possível ambientarem-se antes de entrarem no nosso modelo de fingimento generalizado. Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico