De facto, um Nobel da Paz bem entregue

Diogo Noivo

Politólogo

Publicado a

Atorrente de críticas, previsões catastrofistas e destratos terá valido a pena. No início do ano, quando a líder da oposição venezuelana no exílio, María Corina Machado, ofereceu a sua medalha do Prémio Nobel da Paz ao presidente dos Estados Unidos da América, muitos comentadores e analistas ocidentais viram no gesto um acto penoso de subserviência que desprestigiava o galardão.

Ao contrário de Machado, não perceberam duas coisas essenciais. Primeiro, desde a captura de Nicolás Maduro, Donald Trump tutela de facto a Venezuela. Acresce que a América Latina é uma geografia prioritária para Washington, alvo de uma estratégia que não se inquieta com a promoção da democracia. Estabilidade e a aceitação dos interesses norte-americanos bastarão. O regime chavista não cairá enquanto Washington tirar proveito do statu quo.

Segundo, o grande objectivo de Machado é celebrar eleições livres. E, se possível, ganhá-las. Ora, só haverá eleições se Trump quiser. Dadas as idiossincrasias do personagem, afagar o ego do Presidente com a medalha do Nobel e, por essa via, estabelecer uma relação pessoal de confiança, constitui uma forma legítima de tentar alterar o roteiro de mínimos que os Estados Unidos têm para a Venezuela.

Ademais, a opinião pública venezuelana, a única que conta para Machado, terá entendido a concessão à vaidade de Trump como prova de abnegação e pragmatismo. Como defendi nas páginas do Diário de Notícias em janeiro, o Nobel da Paz é (foi sempre) um prémio político, donde a sua utilização política não deverá surpreender ninguém.

E terá funcionado. Reunida no Panamá, a oposição venezuelana aprovou um manifesto que oferece uma base para a negociação com o regime. Decorre do texto que o processo será liderado por María Corina Machado com a tutela explícita de Washington.

De momento, há mais problemas do que soluções. A união opositora é conjuntural, já que as fissuras e as agendas concorrentes estão onde sempre estiveram e ficaram claras nos trabalhos que decorreram no Panamá. Não é de descartar que o espírito de união colapse no segundo em que se marcarem eleições.

Estas dificuldades são agigantadas pelo caracter errático de Trump, atolado num diálogo pouco promissor com o Irão. A forma como gere a diplomacia no Médio Oriente, em particular a relação com os seus aliados, recomenda cautela à oposição venezuelana, o que dificulta a manutenção de uma frente coesa.

Ainda assim, a simples existência de um manifesto apoiado por Washington constitui uma evidente alteração do roteiro. Por outro lado, as brechas na oposição mostram que Machado fez bem em cuidar a proximidade à Administração Trump, bem como em ter gestos que podem ser valorizados pelo seu eleitorado na Venezuela.

Há, ainda, outra prova importante de alteração no roteiro norte-americano: na semana passada, Jorge Rodríguez, líder da Assembleia Nacional venezuelana, irmão da presidente Delcy Rodríguez, encontrou-se por indicação de Washington com Dinorah Figuera, a presidente da Assembleia Nacional em 2015.

Exilada em Espanha, Figuera foi tratada como inimiga da pátria. O motivo é simples: presidiu à última assembleia eleita com um mínimo de lisura democrática.

Do encontro saiu uma mesa técnica e política paritária que reconstruirá as instituições democráticas, reforçará o Conselho Nacional Eleitoral e oferecerá garantias duradouras para a participação política.

Também aqui há problemas sérios. Mas tudo isto era impensável em janeiro. De facto, María Corina Machado fez bem em entregar a medalha do Nobel da Paz a Trump.

Diário de Notícias
www.dn.pt