De abril a maio, a social-democracia não pode perder o comboio

Manuel José Guerreiro

Presidente da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedras

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 Esta sexta-feira deve ser festejada. 

Como o 25 de Abril, há uns dias, deveria tê-lo sido por todos os que se consideram social-democratas. 

É assim que me defino, quando me defino. Social-democrata, personalista e patriota. É nessa premissa que estou à vontade para lamentar que a social-democracia perca o comboio do 25 de Abril.

Não faz sentido que coloque reticências aos cravos e à manifestação na Avenida da Liberdade ou dos Aliados onde encontramos jovens, estrangeiros, alegria e futuro. 

O PSD nasceu com a revolução de Abril, não o podemos esquecer. Precisava dela para que pudesse abrir-se uma via de esperança com gente que corporizasse um caminho feito de progresso e tolerância. Era necessária a revolução porque o regime apodrecera por dentro. O próprio Salazar não acreditava que o Estado Novo pudesse sobreviver sem ele, se acreditasse teria tido ideias concretas e designado um sucessor, tal como em Espanha.

O 25 de Abril foi uma revolução sem sangue. Com cravos nas espingardas que influenciaram a história da Europa e a nossa vizinha Espanha. Não teria existido uma transição pacífica tão rápida após a morte de Franco, se em Portugal os capitães, mobilizados por um problema laboral dos sargentos, não tivessem despoletado a revolta. Isso e o desgaste de uma guerra que se arrastava há demasiado tempo. 

Defendemos o 25 de Novembro de 1975, certo e justo. 

Mas os homens que deram o corpo às balas, o Grupo dos 9, tinham sido, sem exceção, heróis ou participantes do 25 de Abril.

E a descolonização, perguntarão alguns.

Foi malfeita, poderia ter sido mais respeitadora da memória do que éramos, do que, mal ou bem, tínhamos construído. E fizemos muito fomento.

Traímos muitos dos colonos e dos autóctones, tratámos mal os retornados, cometeram-se crimes de ódio. E permitimos que alguns processos tivessem sido desastrosos, como a independência falhada de São Tomé. Num breve aparte, os africanos que fizeram a independência, os que na altura eram jovens guerrilheiros, são ainda hoje muito portugueses, continuam a ter com o nosso país uma relação de proximidade, o que é curioso e revelador. Voltando aos erros, houve excesso, impreparação dos militares, pulhices e oportunismos, há sempre.

Teria sido preferível uma transição como a espanhola, com um Adolfo Suarez ou uma figura reguladora como Juan Carlos, mas foi o que foi, aconteceu. 

Salazar queria que a seguir a si fosse o caos - e conseguiu. 

Mas o essencial não pode ser beliscado. Com a democracia tornámo-nos mais europeus e o elevador social começou a funcionar como nunca antes. 

Sim, os social-democratas não podem deixar à esquerda o património que pertence a todos os democratas, de esquerda e de direita. Também não podem deixar a rua aos sindicatos no dia 1 de Maio porque é o trabalho que define o ser humano, que o faz progredir, é também uma parte substancial do que define ser social-democrata - o direito a um justo e compensador salário. 

Há que festejar o trabalho, sem complexos. Neste tempo de incerteza, até pela complexidade de qualquer previsão que se possa fazer acerca das consequências da IA, é bom não esquecer que apenas os que dão valor às coisas podem dar valor ao dinheiro. O trabalho é sempre uma relação virtuosa que precisa de ser mantida o melhor que conseguirmos. 

Acima de tudo, sou um personalista. Acredito no valor da dignidade humana e esta não existe sem trabalho. 

É esse o valor supremo. Emmanuel Meunier, ideólogo do personalismo, combateu as sombras do crash económico de 1929 e a mortandade da 1.ª Guerra Mundial, com uma revolução de pensamento que colocou o ser humano no centro, mas não a pessoa desligada de outra pessoa, da sua comunidade, do seu país e do mundo. Todos com todos.

É aqui, neste lugar sagrado, neste campo comum, que precisamos de nos encontrar, crentes e não crentes. Festejar estas datas é apostar nesse chão comum e na dignidade da pessoa humana e da própria democracia que são inegociáveis.

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