As tempestades que atacaram o país são mais um exemplo de fenómenos climáticos extremos que farão parte do novo normal. No inverno e no verão, no interior e no litoral, nas aldeias e nas cidades, teremos de lidar cada vez mais com estas realidades, preparando-nos melhor, reagindo com eficácia e ganhando hábitos de reconstrução quase permanentes.Nestes cenários, todas as capacidades são convocadas: gestão a nível nacional, complementada com o decisivo fator local das autarquias; liderança das instituições públicas, mas com envolvimento da sociedade civil; ações de emergência, conjugadas com intervenções a médio prazo.Foi assim que atuámos em Lisboa: num primeiro momento, oferecendo solidariedade às regiões severamente atingidas; num segundo, alertando a população, limitando riscos, protegendo áreas críticas; num terceiro, lançando imediatas intervenções de reposição, na pavimentação das ruas, na recuperação dos passeios, espaço público e equipamentos danificados; e num quarto, iremos recalibrar os investimentos plurianuais, ajustando os planos às novas realidades.Registe-se também o efeito positivo das apostas estruturais em curso. Em boa hora o Executivo de Carlos Moedas avançou com a grande obra do Plano Geral de Drenagem, que teve efeitos de contenção já nesta crise, através de túneis e bacias de retenção instalados. Em boa hora aprovámos para 2026 um orçamento que faz o investimento crescer quatro vezes mais que a despesa corrente, reforçando as capacidades estruturais da cidade.No entanto, este enquadramento deve levar os portugueses a saírem da espuma dos dias e a refletirem sobre as questões de fundo que enfrentamos, desde a eficácia do nosso modelo económico e de sociedade à relevância das nossas prioridades, passando pela qualidade das instituições e administrações.Nas últimas décadas, temos tratado com demasiada leveza questões cruciais e de enormes consequências: os Governos socialistas cometeram o erro grave de trocar investimentos públicos por políticas meramente distributivas e conjunturais; tem faltado firmeza na defesa das capacidades de planeamento do Estado, na fixação de quadros de elite, na valorização das instituições.Além disso, tanto os partidos de esquerda como as forças populistas têm colocado em causa o princípio do utilizador-pagador, enfraquecendo o financiamento de infraestruturas críticas, a sua manutenção e desenvolvimento, logo prejudicando os cidadãos que mais dependem dos serviços públicos. Por fim, o Estado não tem sabido integrar o contributo de instituições com qualidade técnica e espírito de missão, como as estruturas militares, as universidades e polos científicos, e as organizações da sociedade civil que podem fazer a diferença.As lições destas ocorrências dramáticas, perdas de vidas humanas e milhares de milhões de prejuízos, não devem ser descuradas. Precisamos de infraestruturas robustas, capacidades instaladas e mecanismos de resposta eficientes. Precisamos de planos de investimento ambiciosos, assumidamente sustentáveis e financiáveis. Precisamos de todas as valências e energias, a nível central, municipal e também das áreas metropolitanas, integrando o melhor que o país produz, na academia, no setor privado e, sim, nos militares e forças de segurança. Precisamos que a função de planeamento estratégico não seja um adereço, precisamos de boas-práticas de governança nas instituições e, claro, precisamos de responsáveis nos postos-chave que sejam conhecedores, diligentes e eficazes.Temos condições para recuperar face às situações de emergência e para nos posicionarmos bem para o futuro, mas tal implica abordar de frente os desafios estruturais que as novas realidades nos colocam. Sairemos todos a ganhar.