Cultura, tradição e identidade

Eduardo Teixeira

Economista e deputado à Assembleia da República pelo Chega

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Portugal é um país feito de tradições, e poucas traduzem tão bem a nossa identidade como as festas e romarias. De norte a sul do país, representam muito mais do que celebrações populares. São a preservação da nossa história, da nossa fé, das nossas tradições e da memória coletiva de um povo que soube transmitir, de geração em geração, aquilo que o distingue.

Mas são também essenciais para as nossas regiões. Há tradições que explicam uma terra melhor do que qualquer livro ou campanha de promoção. Uma romaria conta-nos quem somos, de onde vimos e aquilo que uma comunidade escolheu preservar. É nas festas das nossas cidades, vilas e aldeias que muitas vezes reencontramos a essência mais genuína de Portugal.

Num mundo cada vez mais globalizado e uniforme, preservar essa autenticidade tornou-se ainda mais importante. As romarias mantêm comunidades vivas, aproximam gerações, mobilizam coletividades, associações, comissões de festas, comerciantes e milhares de voluntários. Trazem visitantes, dinamizam o comércio, a restauração e o turismo e projetam territórios que, durante aqueles dias, mostram ao país aquilo que têm de mais singular.

É também por acreditar profundamente neste papel da cultura que assumi recentemente a presidência da Comissão da Cultura, Civilizações e Promoção da Qualidade de Vida da Assembleia Parlamentar do Mediterrâneo. Um fórum internacional que reúne representantes de países da Europa, Norte de África e Médio Oriente e onde tenho a oportunidade e a responsabilidade de defender a cultura como instrumento de afirmação dos povos e de valorização das suas identidades.

Enquanto vianense, esta é uma realidade que conheço e vivo de forma muito particular. No Minho, as tradições não estão guardadas numa gaveta. Vivem-se nas ruas, nas freguesias e nas famílias. Estão nos trajes, no ouro, nos bombos, nas concertinas, no folclore, nos gigantones e cabeçudos, na fé e no bairrismo de quem espera todo o ano pela festa da sua terra.

A Romaria de Nossa Senhora d’Agonia é um dos maiores exemplos desta riqueza. Viana do Castelo transforma-se e recebe milhares de pessoas vindas de todo o país, da Galiza e de tantos outros lugares. Há a devoção dos pescadores, os tapetes de sal, os cortejos, a mulher vianense e a sua chieira, a música e uma cidade inteira que abre as portas para mostrar aquilo que tem de melhor.

Há aqui uma lição para quem exerce funções públicas: há tradições que não precisam de ser reinventadas. Precisam de ser respeitadas, preservadas e valorizadas. A modernização não pode significar descaracterização. O nosso dever é garantir que aquilo que recebemos das gerações anteriores chega às seguintes com a mesma autenticidade.

E o Minho é particularmente rico nesta matéria. Das Feiras Novas, em Ponte de Lima, às Festas das Cruzes, em Barcelos, da Senhora da Bonança, em Vila Praia de Âncora, a São João d’Arga e a tantas romarias das nossas freguesias, existe uma região inteira que encontra nas suas tradições uma parte essencial da sua identidade.

Uma identidade que levámos também pelo mundo. França, Brasil, Estados Unidos, Canadá e tantos outros destinos da nossa diáspora continuam a reproduzir tradições minhotas. Onde está a nossa gente, encontramos muitas vezes um traje, uma concertina, uma dança e a vontade de manter viva a ligação à terra.

É essa essência que temos de proteger e projetar. E é também essa convicção que levo para as responsabilidades que hoje desempenho na área da Cultura: valorizar as tradições é valorizar os territórios e as pessoas que lhes dão vida.

As romarias não são apenas memória. São identidade, comunidade, economia e futuro. Porque podemos conhecer muitos lugares no mundo, mas são as nossas raízes que nos dizem onde pertencemos.

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