Crescer para quem?

André Santos Pereira

Professor universitário e analista político

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Crescer mais para viver melhor é uma promessa poderosa. Mas os dados mostram uma distância relevante entre uma economia que cresce e uma sociedade onde menos pessoas vivem perto do limiar de pobreza.

O problema, assim, não está em defender o crescimento. Está em tratá-lo como se, por si só, resolvesse quase tudo. Segundo o Eurostat, 72,4 milhões de pessoas na União Europeia estavam em risco de pobreza em 2024, o equivalente a 16,3% da população. Para 2025, as estimativas não são animadoras. Este crescimento ocorre num período em que o rendimento disponível mediano, em 2024, aumentou 6,2% em termos nominais e 3,6% em termos reais, e apesar de um abrandamento na intensidade, o instituto de estatística da União Europeia estima nova subida em 2025.

Assim, a Europa ficou, em média, mais rica, mas não ficou menos pobre. A taxa de risco de pobreza mede a proporção de pessoas com rendimento inferior a 60% do rendimento mediano nacional, depois de transferências sociais. Não mede apenas se o país ficou mais rico, mede também como essa riqueza se distribui. Por isso, quando o rendimento mediano sobe e a pobreza não desce, o problema não está necessariamente na ausência de crescimento. Está antes na forma desigual como este chega às famílias.

A crítica não é nova. Stiglitz, Sen e Fitoussi já tinham alertado para a insuficiência de medir o progresso apenas por médias económicas. Em alternativa, defendem que é necessário observar a distribuição do rendimento, as condições materiais das famílias, a exposição à insegurança económica. Em suma, observar a capacidade efetiva das políticas públicas em converter crescimento em bem-estar.

Portugal confirma esta leitura. O ministro da Economia afirmou que a prioridade dada ao crescimento económico visa “aumentar os rendimentos e garantir o Estado Social”. Quanto ao objetivo, estamos de acordo. Onde me distancio é na causalidade implícita: a ideia de que crescer é o suficiente para reduzir pobreza e reforçar o Estado Social. O PIB português cresceu 2,1% em volume em 2024 e 1,9% em 2025. Para 2026, a Comissão Europeia prevê uma aceleração para os 2,2%.

O crescimento, portanto, existe. A questão é a sua tradução social. Quanto a essa, dados recentes do INE mostram que a taxa de risco de pobreza desceu para 15,4%, menos 1,2 pontos percentuais do que em 2023. É uma melhoria real e deve ser reconhecida – mas convém não abusar do otimismo. Em 2024, o limiar de pobreza era de 8679 euros anuais, ou 723 euros por mês por adulto equivalente.

Simplificando, uma pessoa pode deixar estatisticamente de ser pobre sem, por isso, deixar de ser pobre. O mesmo se verifica no mercado de trabalho.

O Governo sublinhou que os salários reais cresceram 3,2% em 2025 e recordou que, em 2024, Portugal foi o país da OCDE onde os salários reais mais cresceram. No entanto, o INE mostra que, em 2024, 8,6% da população empregada continuava em risco de pobreza. Trabalhar reduziu o risco, mas não o eliminou.

A ideia de que basta trabalhar para sair da pobreza está, portanto, empiricamente comprometida. E isto traz-me de volta a uma ideia que tenho defendido recorrentemente. O crescimento económico é indispensável, mas sem mais produtividade, salários sustentáveis, habitação acessível e serviços públicos eficazes, há apenas uma melhoria das médias sem se eliminar vulnerabilidades. Produz bons indicadores macroeconómicos, sem garantir mais dinheiro no bolso das pessoas.

O determinante, então, não é apenas saber se Portugal cresce mais do que a média europeia. É saber quem cresce com Portugal. Se a economia avança, mas quase dois milhões de pessoas continuam em risco de pobreza ou exclusão social, então a convergência continua por fazer.

A pergunta decisiva não é se o país produz mais riqueza. É quem beneficia dela.

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