A austeridade discreta do subinvestimento

André Santos Pereira

Professor universitário e analista político

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Nos últimos textos, defendi que a alteração das regras laborais não é uma solução mágica para a competitividade portuguesa. Essa depende, sobretudo, de outro fator: o investimento. Falta agora retirar a consequência prática desse diagnóstico. Portugal continua a investir aquém do necessário – e isso compromete quase tudo.

A evolução da última década justifica algum otimismo, mas deve ser lida em perspetiva. A formação bruta de capital fixo, que se traduz em investimento em infraestruturas, equipamentos, construção ou tecnologia, recuperou gradualmente para cerca de 20,4% do PIB em 2024, após os níveis críticos do período da crise financeira. Ainda assim, permanece abaixo do período anterior: perto de 22,9% do PIB em 2008.

Porém, a inversão de ciclo não significa que o problema esteja resolvido. Significa antes que saímos de um patamar anormalmente baixo. Um país que acumulou anos de subinvestimento não irá convergir se investir apenas perto da média. Converge investindo acima dela a longo prazo, de forma estável, seletiva e produtiva. Em 2025, segundo o INE, a formação bruta de capital fixo manteve uma trajetória de abrandamento. Cresceu 6,0% em 2023, 4,3% em 2024 e 3,5% em 2025, num país que tem uma das intensidades de capital por trabalhador mais baixas da Europa. Mais relevante, segundo o Banco de Portugal, o contributo do investimento para o crescimento do PIB em 2024 foi quase nulo. E o problema agrava-se no investimento público. O Conselho de Finanças Públicas estimou que a formação bruta de capital fixo das administrações públicas poderia atingir 3,7% do PIB em 2025, o valor mais elevado desde 2010. Sem o efeito do PRR, o valor seria inferior: 2,6%. Em termos absolutos, o acréscimo previsto seria de 1.564 milhões de euros com PRR, mas apenas 340 milhões sem esse efeito. O próprio CFP projeta que, em 2027, o investimento total possa contrair 1,7%, muito por conta do fim do Plano de Recuperação e Resiliência.

Dito isto, a conclusão é que a diferença entre um investimento público relevante e um investimento público modesto tem um nome: PRR. É por este contexto que o novo PTRR deve ser avaliado com cautela. Apresentado como um plano de 22,6 mil milhões de euros até 2034, o valor parece impressionante. Mas a comparação com o PRR é enganadora. Um plano a nove anos não terá o mesmo efeito macroeconómico de um plano semelhante concentrado em quatro ou cinco anos. Menos ainda quando uma fatia relevante do plano depende de financiamento privado, que é incerto, e de verbas europeias por garantir. A desagregação do PTRR confirma essa prudência. A distribuição do financiamento impacta a despesa das administrações públicas em cerca de 8,4 mil milhões de euros até 2034. Em média, trata-se de menos de mil milhões de euros por ano - cerca de 0,3% do PIB de 2024. O número global impressiona, no entanto, o esforço anual efetivo do Estado é bastante mais limitado.

O problema, portanto, não é o PTRR. É saber se a sua escala anual, a sua composição financeira e a concretização do investimento privado e europeu previstos são suficientes para substituir o impulso temporário do PRR, de forma que não se reabra o fosso que se começava a fechar.

As economias não convergem por acidente: convergem quando orientam investimento para atividades de maior produtividade. O investimento público de qualidade não substitui o privado; desbloqueia-o, ao reduzir custos de contexto, melhorar infraestruturas, aumentar previsibilidade e criar condições para decisões privadas de longo prazo.

Portugal precisa, por isso, de uma estratégia de investimento que não dependa do calendário europeu. Precisa de escala, continuidade e execução. “Investir melhor” não pode ser uma fórmula elegante para continuar a investir pouco.

Contas equilibradas importam, mas contas certas sem investimento suficiente podem apenas certificar uma estagnação ordeira. Reduzir a dívida é relevante, mas reduzir o atraso produtivo é indispensável.

A pergunta decisiva, então, não é se sabemos o que fazer. É se estamos dispostos a investir nessa escolha.

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