Convicções ou circunstâncias?

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Ao escrever esta crónica, importa começar por uma distinção essencial: a diferença entre valor e preço. A coerência é, ou deveria ser, um valor estruturante da vida pública e privada – ainda que, nos dias que correm, seja mais proclamada do que praticada. A sua presença – e, sobretudo, a sua ausência – têm, porém, um custo. E esse custo tende a aumentar.

Ser coerente exige, muitas vezes, pagar um preço. Pode ser social, moral ou até económico. Pode traduzir-se em desconforto, crítica ou isolamento. Talvez por isso seja hoje um valor tão frequentemente invocado quanto raramente vivido.

Apregoá-lo é fácil; praticá-lo continua a ser exigente.

No essencial, a coerência é fidelidade a si próprio. Há quem sustente que apenas os tolos não mudam de opinião e que mudar é sinal de inteligência. Sem discordar, convém distinguir evolução de contradição. Um lenço encarnado pode ser vermelho – mas não se torna branco de um dia para o outro sem uma explicação clara.

Manter essa linha ao longo do tempo não é simples. Exige equilíbrio, disciplina e, sobretudo, clareza. Num contexto em permanente mudança, essa exigência torna-se ainda mais evidente. Mas a dificuldade não pode servir de álibi para oscilações sucessivas e pouco transparentes.

Na vida pública, esta tensão revela-se com particular nitidez. A alternância entre funções de governo e de oposição testa a consistência dos discursos e a solidez das convicções. Nem sempre essa passagem é acompanhada pela clareza necessária – e, por vezes, a fronteira entre evolução legítima e mera conveniência torna-se difusa.

A democracia vive do confronto de ideias. Vive da crítica. Vive da alternativa. Mas vive também – e talvez sobretudo – da confiança. E a confiança constrói-se na coerência: na previsibilidade das posições, na consistência dos argumentos, na capacidade de explicar mudanças quando elas ocorrem.

Neste ponto, a informação desempenha um papel decisivo. A informação rigorosa, que confronta o presente com o passado, que expõe continuidades e evidencia ruturas. 

Num espaço público cada vez mais escrutinado, a coerência deixou de ser apenas uma virtude desejável – tornou-se uma exigência inevitável.

Importa, por isso, regressar ao essencial. O que era válido ontem não deve deixar de o ser hoje apenas porque mudou o contexto – ou o protagonista. E quando muda, essa mudança deve ser assumida, explicada, sustentada.

No fundo, a questão permanece simples: queremos uma vida pública feita de convicções ou de circunstâncias?

Convém não esquecer: as pessoas podem perdoar, mas raramente esquecem. E um futuro mais sólido constrói-se com memória – e com responsabilidade.

Porque, no fim, só tem futuro quem não precisa de reescrever constantemente o seu passado.

Pelo futuro. Em coerência.

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