Portugal amanheceu mais pobre em junho, sem produzir menos um euro. Bastou o INE atualizar a população residente para o PIB per capita descer de cerca de 81% para 76,2% da média europeia.Já escrevi nesta coluna que o número diz mais sobre métodos estatísticos do que sobre riqueza. Regresso ao tema porque o erro não está no cálculo – está no tempo verbal.Mede-se o que os imigrantes fizeram ao rácio no dia em que foram contados e ignora-se o que podem fazer à economia nas décadas em que cá viverem e trabalharem.Amplifica a conta que serve ao argumento e arquiva a que o contraria. A diferença começa em duas contas distintas. O PIB per capita divide o produto já realizado pela população residente. Caiu porque o denominador aumentou, não porque Portugal tivesse produzido menos. O PIB potencial estima o máximo que a economia consegue produzir de forma sustentável com o trabalho, o capital e a produtividade de que dispõe. Um retrata a média num instante; o outro determina a capacidade dos anos seguintes.O próprio Eurostat reconheceu a fragilidade do número. Perante a revisão do INE, esclareceu que os indicadores com a população no denominador só serão recalculados depois de validados os novos dados e que a reconciliação das Contas Nacionais entre 2021 e 2026 só fica concluída em março de 2027. Julgámos o país por um valor que a instituição que o assina já avisou que vai mudar. E esta é só a dúvida sobre o quando. Há uma outra, mais incómoda, sobre o quem.Aceite-se a objeção mais simples. Mesmo que a conta venha a fechar, há hoje mais gente do que produto para dividir, e é desse presente que se vive, não do potencial que se projeta. Mas o argumento pressupõe uma certeza que ninguém tem – quantas das 1,6 milhões de pessoas contadas continuam, de facto, cá?A estimativa nasce de indícios de residência cruzados entre bases administrativas - Segurança Social, Finanças, escolas, títulos de residência -, não de um recenseamento, e o próprio INE reconhece que ainda faltam fontes decisivas de 2025, como o IRS. A OCDE estima que entre 20% e 50% dos imigrantes deixam o país de acolhimento em cinco anos. Se parte já partiu sem ainda ter saído das bases de dados, o denominador de junho pode estar tão inflacionado quanto o antigo estava subestimado. É por isso que prefiro olhar para o potencial, e não apenas para a fotografia.Quem chega aumenta o denominador no dia em que é registado. Mas também entra na população ativa, trabalha, desconta e educa cá os filhos. Num país onde a natalidade não repõe gerações e a emigração continua a levar trabalhadores qualificados, essa imigração é a principal reserva de crescimento potencial. Não por bondade nem ideologia, mas por aritmética - multiplicar por zero dá sempre zero. E a reserva já não é ilimitada.O crescimento da população estrangeira caiu de 326 mil pessoas em 2022 para pouco mais de 59 mil em 2025, ano em que o saldo natural voltou a ser negativo. O Banco de Portugal avisou que a redução dos fluxos limitará o emprego nos próximos anos; o Conselho das Finanças Públicas reviu, em abril, o crescimento de médio prazo de 1,8% para 1,6%, citando a evolução dos fluxos migratórios como um dos riscos descendentes.Em síntese, sem aqueles que chegam, o país cresce menos. Quem promete menos imigração sem dizer de onde virão os trabalhadores está a prometer menos economia.Mas o número de trabalhadores, por si só, não chega. O efeito da imigração no crescimento depende da capacidade do país para transformar população em capital humano e emprego produtivo. Como mostraram Eric Hanushek e Ludger Woessmann em The Knowledge Capital of Nations, o crescimento de longo prazo depende menos dos anos passados na escola do que daquilo que se aprende nela. E é aqui que temos caminho a fazer. O último PISA revelou quedas de 21 pontos a Matemática e 15 na Leitura. Sem integração, o país ganha gente e desperdiça potencial; com qualificação, ganha capital humano. O próprio Banco de Portugal assume esta aposta quando projeta que, no médio prazo, seja o aumento da produtividade a compensar o menor dinamismo demográfico. É uma aposta, não uma garantia – e ganha-se ou perde-se em decisões concretas: recuperar as aprendizagens que o PISA diz estarmos a perder, desbloquear o reconhecimento das qualificações de quem chega e integrar em vez de apenas registar.Mas nenhuma destas decisões rende uma polémica de fim de tarde.