O argumento da Ministra da Saúde tinha a eficácia das explicações simples: o Governo faz o seu trabalho, a imigração estraga o resultado. Perante o Congresso do PSD, atribuiu à imigração o aumento dos utentes sem médico de família. Dias depois, garantiu não ter culpado ninguém. Aceitando-a de boa-fé, o problema não está na intenção, está na conta apresentada. Segundo o Conselho das Finanças Públicas, os trabalhadores estrangeiros geraram um saldo líquido de 16,3 mil milhões de euros para a Segurança Social entre 2015 e 2025. Só no último ano, descontaram mais de 4 mil milhões. Sem eles, o número de contribuintes ativos teria estagnado e o excedente recorde de 6,7 mil milhões do sistema previdencial não existiria. O grupo retratado como encargo surge como uma das fontes do excedente.Isto já não parece apenas um lapso. Tem antes o contorno de uma narrativa que se vai instalando. Há mais de um ano que o Ministro da Presidência converteu a “porta escancarada” em bordão, responsabilizando o executivo anterior por um “caos” cujos efeitos “vão durar anos”. A culpa tende a recair sobre quem chegou e sobre quem o deixou chegar – raramente sobre quem governa agora.Esta operação tem um nome na ciência política: chauvinismo do Estado social. É a estratégia, hoje transversal à direita radical europeia, de separar beneficiários por critérios morais – os que merecem e os que não –, reservando a proteção para o nacional e tratando o imigrante como intruso no sistema que também financia. Foi com essa gramática que a Rassemblement National e a AfD cresceram – não negando que os serviços falham, mas oferecendo-lhes um culpado que dispensa explicação. O guião não se esgota na saúde. O INE reviu a população residente para 11,4 milhões, com perto de 1,6 milhões de estrangeiros – número que serve para explicar qualquer falha. A seguir virá a habitação, com a procura imigrante a pressionar as rendas. Virá a escola, onde a falta de vagas – cerca de 12 mil só no pré-escolar público – será imputada à pressão demográfica e não ao subinvestimento. Nas prestações sociais, em que o Governo admitiu condicionar o acesso de imigrantes a apoios. Nas creches, já se tentou fazer crer que os filhos de imigrantes tinham prioridade nas vagas – o que era falso. Em suma, a tentação será transformar uma revisão estatística num veredito político: fomos ultrapassados porque deixámos entrar gente a mais. O problema não está no INE, mas no uso que se faz dos seus números. Se o método anterior corria o risco de subestimar o número de residentes estrangeiros em Portugal, o novo corre o risco oposto, manter no denominador pessoas que já saíram. Este não é um risco menor. A OCDE estima que 20% a 50% dos imigrantes partem em cinco anos; na Alemanha, o estudo de referência sobre a imigração turca mostra que metade de cada geração parte em quinze. A migração é um fluxo, não um depósito. Se o denominador populacional sobe por via administrativa mais depressa do que os fluxos económicos são reconciliados, a leitura política está enviesada.A fragilidade maior está no PIB per capita. Se se aumenta abruptamente o denominador e se mantém, por agora, um numerador produzido por outro sistema estatístico, estamos perante uma inconsistência estatística e não necessariamente uma perda efetiva de rendimento ou produtividade. Dizer que Portugal caiu de cerca de 81% para 76,2% da média europeia significa calcular população nova a dividir produto velho. Isto não prova que a imigração empobreceu o país. Prova que há uma revisão demográfica por reconciliar com produção, emprego, consumo, contribuições e produtividade.A imigração aumenta o denominador no dia da revisão estatística, mas também aumenta, a prazo, a população ativa, a base contributiva, a procura interna e o potencial de crescimento. Num país envelhecido, com cerca de um quarto da população acima dos 65 anos e um índice de envelhecimento próximo de 190 idosos por 100 jovens, sem entrada de trabalhadores, a alternativa é menos crescimento potencial, mais pressão sobre pensões e mais dificuldade em financiar serviços públicos.O que não podemos fazer neste debate é escolher a fotografia e dispensar o filme. Mostrar o efeito imediato no PIB per capita e omitir a pergunta fundamental - que país cresce, investe e financia o Estado social com uma demografia em contração? Se o problema é produtividade, a resposta não é expulsar quem trabalha; é qualificar, reter e atrair talento e integrar melhor quem já está cá, de forma a transformar o perfil económico do país. E essas respostas não competem a quem procura Portugal para trabalhar. Competem a quem legisla e governa.É sempre mais fácil escolher quem culpar do que responsabilizar quem tem culpa. O perverso está em trocar decisões difíceis por bodes expiatórios.