Há uma verdade incómoda que a classe política portuguesa prefere adiar. Os jovens que trabalham hoje, que fazem os seus descontos todos os meses, que constroem uma vida com o que sobra depois dos impostos, merecem uma resposta honesta sobre o que os espera.Segundo o Ageing Report de 2024, quem tem hoje 35 anos receberá na primeira pensão, aos 70 anos, cerca de 40% do último salário. Por cada mil euros ganhos, o Estado entregará 401 euros. Os números são da Comissão Europeia, não são uma opinião. E pioraram em seis anos. A classe política sabe, mas prefere olhar para o lado.A resposta do PS foi a dos suplementos extraordinários, dos complementos ad hoc, dos 10 euros aqui e acolá, sempre a tempo do ciclo eleitoral. Uma máquina de promessas que compra votos de quem já se reformou à custa de quem só agora começou a trabalhar. Na oposição, o método não mudou. Quer tornar permanentes os suplementos do Governo. Muda a bancada, fica o mesmo vício.Mas há quem vá mais longe. O Chega quer baixar a idade da reforma e equiparar a pensão mínima ao salário mínimo, num país demograficamente envelhecido com cada vez menos jovens a sustentar cada vez mais pensionistas. É comprar votos com dinheiro que não existe. Se tivessem hipótese de governar rebentariam de vez com a Segurança Social.O PSD não chega a tanto, mas o resultado é o mesmo. Alinha quando a pressão eleitoral aperta, aprova os mesmos suplementos, adia as mesmas reformas. O sistema continua a degradar-se, relatório após relatório, governo após governo.O que ninguém diz é que estes partidos condenam os jovens duas vezes. Primeiro no mercado de trabalho, bloqueando as reformas que dariam mais mobilidade, salários mais altos e uma economia mais produtiva. Depois na reforma, entregando-lhes um sistema esgotado, sem reservas, sem capitalização, sem futuro.Porque existe um problema estrutural. Com menos nascimentos, mais longevidade e emigração de jovens qualificados, a aritmética é implacável. E, ainda assim, as propostas que vemos são sempre para acelerar o colapso.Custa votos rejeitar propostas que soam bem e custam caro. Custa votos dizer a um pensionista que a sua reforma não pode subir mais do que a economia permite. Custa votos explicar que baixar a idade da reforma sem reformar o sistema é assinar um cheque sem cobertura em nome dos seus filhos. A Iniciativa Liberal tem feito exatamente isso, votando contra o que é popular, mas insustentável, e apresentando uma alternativa séria.Uma transição gradual para um modelo assente na solidariedade e na capitalização individual. Contas individuais, fundos de pensões, poupança que pertence a quem trabalha. É o modelo que países responsáveis adotaram quando ainda tinham tempo. É o modelo que os portugueses que emigram para a Suíça, Reino Unido ou Canadá têm. Se lá funciona bem e os portugueses que lá estão gostam, por que não pode funcionar em Portugal?Portugal ainda tem esse tempo. Mas desperdiça-o a cada suplemento aprovado, a cada reforma adiada, a cada eleição ganha com promessas que os jovens de hoje pagarão amanhã. A questão não é só técnica, é também moral. Que futuro queremos deixar para os que vêm a seguir?