Está instalado na Universidade do Minho, em Guimarães e é capaz de executar 10 milhões de biliões (dez petaflops) de cálculo por segundo. Inaugurado em 2023, o Deucalion é utilizado para realizar simulações e modelação nos mais variados domínios científicos, da medicina personalizada ao design de fármacos e novos materiais, observação da Terra, entre outros usos, mas também se destina a reforçar a soberania digital da Europa em termos de Inteligência Artificial (IA).O Deucalion – que entrou para o Top-500 dos supercomputadores mundiais – surgiu no âmbito da rede europeia EuroHPC (Empresa Comum para a Computação Europeia de Alto Desempenho), uma iniciativa da União Europeia que tem como objetivo tornar a Europa líder mundial na área da supercomputação.Vejamos o exemplo do treino de algoritmos: embora a capacidade total de computação instalada para este fim tenha aumentado 3000 vezes a nível mundial nos últimos cinco anos, a Europa perdeu terreno. Estima-se que apenas 5% da capacidade global de supercomputadores esteja ainda localizada no continente. Não é possível apurar um valor absoluto, uma vez que alguns países e fornecedores não listam os seus recursos há anos.Dependência na cloud: conveniência com riscosÉ preferível deixar o processamento para outros do que fazê-lo nós próprios – é precisamente para isso que existem os fornecedores de cloud. Quer se trate de Infrastructure as a Service, computação serverless ou orquestração de container, os hyperscalers estão constantemente a lançar novas funcionalidades, funções pay-as-you-go e ecossistemas globalmente disponíveisEmbora seja isto que os torna atraentes para muitas empresas, a história recente mostrou os riscos que a dependência de uma única fonte pode acarretar: vírus que paralisam cadeias de abastecimento globais, explosões em gasodutos e tarifas que dificultam o comércio de chips standard. O que antes parecia impossível e impensável, agora parece possível e concebível.Mais soberania, menos risco: empresas reveem estratégias de cloudRiscos de negócio e incertezas geopolíticas – os estudos mostram o que está a acontecer na economia perante este cenário. Segundo um inquérito da Gartner de finais de 2025, mais de 60% dos CIO e líderes de TI na Europa planeiam aumentar a sua dependência de fornecedores de cloud locais e regionais, enquanto 53% concordam que a geopolítica restringirá a utilização futura de fornecedores globais de cloud pelas suas organizações. Os especialistas da consultora preveem que, até 2030, mais de três quartos das empresas não-sediadas nos EUA terão desenvolvido uma estratégia de soberania digital.O Cloud Business Survey da PWC na EMEA mostra algo semelhante: no final de 2025, 82% das empresas e organizações estavam a considerar a "geopatriação" – refinando a sua abordagem à infraestrutura de cloud em resposta a incertezas geopolíticas e alterações regulamentares. As consequências: enquanto as clouds públicas perdem importância, as estratégias de cloud híbrida e multicloud tornam-se cada vez mais interessantes.Tal como nas empresas, o conceito de geopatriação também tem eco nos estados que no caso português tem a expressão máxima no projeto de Cloud Soberana. Com conclusão prevista para 2027 esta infraestrutura operada pela IP Telecom irá assegurar que dados críticos permanecem sob jurisdição e suporte estritamente nacionais. Por outro lado, permite o fine tuning de modelos de IA generativa em ambientes controlados ao eliminar a necessidade de transferir dados restritos para regiões cloud estrangeiras. Modelos híbridos em vantagem: distribuição direcionada de cargas de trabalhoMenor dependência, maior resiliência – as empresas já não estão dispostas a confiar o seu futuro a um único grande fornecedor. Em vez disso, de acordo com a consultora alemã de pesquisa de mercado de TI techconsult, 57% das empresas alemãs inquiridas utilizam soluções híbridas. No futuro, 22% pretendem basear-se numa estratégia multicloud – e a tendência é crescente.As vantagens desta abordagem são óbvias: os modelos híbridos combinam o melhor de todos os mundos. Por exemplo, os utilizadores mantêm cargas de trabalho críticas e dados confidenciais na cloud privada e apenas externalizam certos recursos e aplicações para clouds públicas.A distribuição direcionada de cargas de trabalho está a tornar-se, cada vez mais, um fator de sucesso. Mais empresas reconhecem que diferentes aplicações e serviços têm requisitos distintos: um fornecedor pode oferecer GPUs potentes para IA, enquanto outro se destaca por bases de dados robustas ou funções de conformidade sofisticadasUma abordagem diferenciada permite selecionar o ambiente mais adequado a cada aplicação, criando sinergias entre plataformas. De acordo com a techconsult, os fornecedores europeus são particularmente procurados como resposta regional aos hyperscalers estrangeiros: estes superscalers oferecem serviços com um foco predominantemente regional em toda a Europa. Embora os seus serviços sejam mais específicos do que os dos grandes fornecedores, também estão em conformidade com a legislação de proteção de dados da UE.Caminhos privados para a cloud: mais soberania para as empresasQuer se trate de backup & disaster recovery, clusters de Kubernetes ou conformidade – os Internet Exchanges desempenham um papel fundamental no desejo das empresas locais por uma cloud mais resiliente e digitalmente soberana. Isto acontece porque, onde quer que empresas, redes e clouds se liguem em Internet Exchanges, trocam dados entre si de forma controlada.Por um lado, mantêm os dados locais na própria região. Por outro, permitem que os caminhos físicos por onde viajam os bits e bytes – separados da internet pública – sejam precisamente determinados, regulados e definidos. Além disso, os operadores oferecem serviços de encaminhamento virtual específicos para clouds: por exemplo quem se liga, a partir de Portugal, ao Cloud ROUTER da DE-CIX, pode interligar-se direta e privadamente com plataformas de cloud e cerca de 400 centros de dados na Europa aos quais a DE-CIX está ligada.As cargas de trabalho e os fluxos de dados podem ser integrados e interligados entre diferentes fornecedores em regime de self-service reduzindo custos de saída (egress) e otimizando a largura de banda e a latência. Mais de 50 clouds estão ligadas à plataforma. As empresas podem implementar estratégias multicloud flexíveis através do serviço de encaminhamento definido por software. O serviço não está ligado individualmente a centros de dados, mas está disponível em toda a Europa – seja na Alemanha, Espanha, França, Portugal ou nos países nórdicos.De acordo com um relatório da associação digital alemã Bitkom, 62% das empresas estão certas de que, sem a cloud, não existe modelo de negócio. E, de acordo com a techconsult, 54% dos inquiridos planeia optar por modelos operacionais híbridos no futuro. Afinal, aqueles que apostam em soluções transparentes, fluxos de dados controláveis e fornecedores diversificados fortalecem a sua soberania digital e o seu poder de negociação com os fornecedores.Regressamos agora Deucalion. O supercomputador custou 20 milhões de euros. Uma "gota no oceano" comparada com o plano da União Europeia de mobilizar 200 mil milhões de euros em investimento para construir "gigafábricas" de IA e servindo a crescente procura por IA soberana no continente. Portugal e Espanha formalizaram recentemente uma candidatura conjunta à Comissão Europeia para a instalação de uma Gigafábrica de Inteligência Artificial (IA) na Península Ibérica.