Há hoje na sociedade uma noção mais clara da importância de cuidar da saúde mental. O debate em torno do assunto também serviu para identificar locais e contextos onde o risco de ansiedade e eventuais episódios depressivos é maior. As instituições de Ensino Superior são um desses 'pontos quentes'. Além dos desafios já inerentes à entrada na vida adulta, e de outros fatores exógenos que não podem controlar, como, por exemplo, terem de estudar longe do local de residência, há razões endógenas a alguns perfis de estudantes que os aproximam de crises de saúde mental, como a cobrança excessiva que fazem sobre si próprios no que diz respeito ao desempenho académico. “Acho que essa cobrança vem muito mais internamente, porque sei qual é a minha capacidade e eu quero alcançá-la e explorá-la tanto quanto possível. Só que também é muito difícil discernir quando é que essa tentativa de busca pela capacidade máxima vira um princípio de burnout”, resumiu Rita Morais, estudante da Escola Superior de Educação de Coimbra, num vídeo dedicado à Saúde Mental produzido em 2024 e transmitido na RTP2.Com conta, peso e medida, esta pressão autoimposta até é salutar, mas quando se torna excessiva abre a porta a comportamentos obsessivos que, por sua vez, podem conduzir a outro tipo de ações ainda mais preocupantes, como o uso recorrente de medicação. Há um ano, no estudo “Ecossistemas de Aprendizagem Saudáveis nas Instituições de Ensino Superior em Portugal”, que envolveu 2339 estudantes entre os 17 e os 35 anos, mais de 65% dos alunos disseram sentir uma “constante pressão” de tempo devido à pesada carga de estudo, 61,6% descreviam-se como exaustos e 40% admitiram tomar psicotrópicos para lidar com estes problemas. A pressão sobre o desempenho académico, no entanto, é apenas uma das faces do problema. Desmotivação com o curso escolhido, pressão financeira, falta de condições nos alojamentos, dificuldade em cultivar relações sociais e todo um conjunto de outras questões pessoais que podem surgir a qualquer momento, como o fim de uma relação amorosa ou a morte de um familiar ou amigo, também fazem parte desta difícil equação. Números recentes, revelados pelo Expresso com base num estudo da Associação Académica da Universidade de Lisboa, ajudam a estruturar a dimensão do problema: 56% dos inquiridos já ponderaram desistir de estudar por se sentirem “psicologicamente esgotados”.Em 2024, foi lançado o Programa Nacional de Promoção da Saúde Mental no Ensino Superior, dotado pelo Governo com 12 milhões de euros para dar respostas aos alunos. A iniciativa, que apoiou 40 projetos em 68 instituições, foi bastante elogiada no meio académico - “deu-se um salto enorme”, considerou Luís Ferreira, novo presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas – e com o aproximar do prazo para a conclusão do programa (em setembro) repetiram-se apelos para a sua manutenção, algo com que o Governo, entretanto, já se comprometeu. Não podia ser de outra forma. Este é o tipo de resposta que o Estado tem de dar, seja focado no tratamento, seja na prevenção. Até porque estas situações estão a despontar cada vez mais cedo, ainda no ensino secundário, quando os exames começam a ganhar mais peso na composição das médias de acesso ao Ensino Superior. Ajudar a compreender a ansiedade e dotar os mais jovens de ferramentas para a mitigar é a melhor forma para evitar que este inimigo invisível os prive de uma vida mentalmente saudável.