Combate aos fogos. A fasquia acabou de ficar mais alta

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Se há um problema e é preciso financiamento para o corrigir, mas o dinheiro não existe, então o problema tende a perdurar. No entanto, o inverso também é verdade, porque há vários exemplos de que atirar dinheiro para cima de problemas não se traduz, inevitavelmente, numa solução. Um desses casos é a Saúde.

A dotação orçamental do ministério tem vindo a aumentar de ano para ano, mas os problemas (novos e velhos) que afetam o Serviço Nacional de Saúde (SNS) perpetuam-se. A falta de médicos, a incapacidade de reter profissionais, a fuga de especialistas para o setor privado, a desproporcionalidade de meios no território, os atrasos sistemáticos nas primeiras consultas e a elevada percentagem da população sem acesso a médico de família são temas recorrentes na discussão pública há décadas. Pode até haver mais dinheiro, mas sem soluções estruturais e corajosas para atacar os problemas de que servem os euros a mais?

No plano político, para quem está na oposição ao Governo pouca diferença faz se o investimento é maior. Para manterem a pressão alta, o que exigem são soluções para ontem (como, aliás, fez Luís Montenegro quando estava o PS no poder). No entanto, quem tem de executar sabe – ou devia saber – que a consolidação de políticas eficazes leva tempo e não há problema crónico que se resolva com um passe de mágica.

Perante esse quadro, não deixa de ser surpreendente a forma como o primeiro-ministro falou durante a apresentação do Dispositivo Especial de Combate aos Incêndios Rurais (DECIR) para 2026, que terá um reforço orçamental de mais seis milhões de euros em relação ao ano passado (passa de 44 para 50 milhões). “Se temos muito mais viaturas, máquinas de rasto, mais equipas e disponibilidade, não nos podemos conformar com o mesmo resultado ou resultados piores. Queremos melhores resultados. (…) A ordem que nós queremos dar é para andarem para a frente. Deixem-se de burocracias e tecnocracias, porque o povo não merece estar à espera de uma resposta só porque falta interpretar uma vírgula ou um parágrafo numa determinada regra”, avisou Luís Montenegro.

As declarações do primeiro-ministro podem ser lidas como um apelo à 'descomplicação' de alguns processos, e isso é positivo, mesmo que se saiba que a fonte da carga burocrática, na maior parte da vezes, seja o próprio Estado Central. Por outro lado, de maneira intencional ou não, Montenegro elevou o nível de exigência que se colocará ao Governo que ele próprio lidera, usando até o tal argumento de que, se há mais dinheiro, há, ao mesmo tempo, menos espaço para desculpas.

Corajoso? Sim, porque será cobrado se algo correr mal. Arriscado? Também. Principalmente porque, no que diz respeito aos incêndios florestais – e outras catástrofes naturais, como as recentes cheias –, surge associada uma grande dose de imprevisibilidade, já que o país está cada vez mais exposto a fenómenos climatológicos extremos, desde rios atmosféricos a ondas de calor e seca, como têm vindo a advertir vários especialistas nos últimos meses.

Em Ponte da Barca, a assistir à intervenção do primeiro-ministro, estiveram alguns ministros (Defesa, Ambiente, Agricultura e Mar), incluindo aquele que terá maior responsabilidade nesta área (Administração Interna). Luís Neves está há menos de um mês no cargo e já tem um recado do chefe. A pressão ficou mais alta.

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