Entrámos no período acidentado das provas de avaliação externa nas escolas, que tanto incomodam facções diversas no debate sobre Educação, desde os que as querem eliminar (explicitamente) por razões ideológicas aos que as querem mitigar (disfarçadamente) porque podem reduzir os níveis de “sucesso”? Insiste-se na sua realização em suporte digital, esperando-se pelo desenrascanço natural para ultrapassar as evidentes limitações que existem para a sua realização? Nas provas híbridas, o Ministério da Educação opta por alegar questões de “segurança” para não informar a opinião pública sobre os procedimentos que seguirá a digitalização das provas, quem o fará, onde e como?Nada disso tem muito interesse, se for possível lançar um tema para entreter o público e nada melhor do que apresentar, sem que se perceba o contexto ou a adequação do momento, números sobre processos disciplinares a professores e dirigentes escolares. Em notícia do JN, ficámos a saber que “desde janeiro de 2021, a Inspeção-Geral da Educação instaurou 824 processos disciplinares a professores e diretores”. De tudo isso resultaram 140 sanções a professores (11 demissões) e a cessação de comissão de serviço de um director, “revelou ao JN o Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI)”. O sentido desta “revelação”, agora, escapa-me, até porque não surgiu acompanhada de dados sobre processos instaurados a outros agentes educativos (não existiram nos serviços centrais e regionais do MECI?) ou mesmo a alunos. A divulgação assimétrica da informação tornou-se uma prática comum na Educação.Por acaso, até acho coisa escassa, pois dá duas demissões por ano num universo bem acima dos 100.000 profissionais. Duvido que outra profissão se possa gabar de tão baixa incidência de problemas, em especial quando incluem ocorrências como “a mãe de um aluno denunciou à Direção do agrupamento que a docente chamou ‘queixinhas’ ao filho”, o que levou seis meses a demonstrar-se infundado. Poderia acrescentar um outro caso, recente, em que a queixa foi: “o professor apontou o dedo de forma agressiva ao aluno”. Enquanto isto é apreciado, outras situações, bem documentadas, ficam anos por resolver, apostando no esquecimento geral. Coincidências.Por outro lado, continuamos sem saber quais foram as necessidades de professores este ano lectivo, embora existam estudos para os próximos anos ou décadas. Parece que continua a ser impossível saber isso, assim como determinar até que ponto isso foi encoberto com uma enorme descarga de horas extraordinárias sobre os professores ainda em exercício. Mas, se estes números permanecem um mistério, há outros que surgem quando interessa desfocar as atenções. No início do mês, fez-se saber em nota oficial que “o número de horários por ocupar nas escolas desceu de 1208, em janeiro, para 448 em março”, que, desde 2024, “mais de 10 mil novos professores entraram na escola pública” e até que “a recuperação do tempo de serviço já abrangeu mais de 84 mil docentes”, sem se especificar quantos saíram antes de isso acontecer.No final do ano lectivo, para desviar as câmaras de outras matérias sensíveis que se andam a negociar formalmente, enquanto se decidem nos bastidores, acredito que surja uma nova revoada de estatísticas a transbordar de um rigor assimétrico sobre a extrema bondade das políticas desenvolvidas. Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico