China, Japão e um distante Xangri-lá

Leonídio Paulo Ferreira

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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Ao apontar numa conferência, em Singapura, o dedo aos gastos militares da China, o ministro da Defesa japonês, Shinjiro Koizumi, está sobretudo a dar um sinal a Pequim de que Tóquio não se deixará intimidar pelas críticas constantes em sentido contrário. De facto, em vésperas do chamado Diálogo de Xangri-lá, assim batizado em referência ao misterioso oásis de paz e harmonia na Ásia imaginado há um século pelo britânico James Hilton num dos seus romances, o porta-voz do ministério chinês da Defesa, Jiang Bin, tinha acusado o Japão de neomilitarismo.

A resposta de Koizumi, no encontro no fim de semana em Singapura organizado pelo Instituto de Estudos Estratégicos Internacionais (IISS, na sigla em inglês), virou a acusação de Jiang para a China, sendo que na realidade os dois países, durante a última década, viram um enorme aumento do investimento em Defesa, se bem que ainda relativamente baixo em termos de percentagem do PIB, sobretudo se comparado com os Estados Unidos.

"A China tem uma relação difícil com o Japão, por causa da invasão japonesa dos anos 1930, que só terminou quando aconteceu a derrota nipónica na Segunda Guerra Mundial."
"A China tem uma relação difícil com o Japão, por causa da invasão japonesa dos anos 1930, que só terminou quando aconteceu a derrota nipónica na Segunda Guerra Mundial."

Segundo as estimativas do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI), a China, em 2025, foi o segundo país com maiores gastos militares, com 336 mil milhões de dólares, só atrás dos Estados Unidos, com 945 mil milhões. O Japão surge na décima posição, com 62,2 mil milhões. Mas desde 2016, portanto no espaço de uma década, o crescimento tem sido notável, e tenderá a acentuar-se. No ano passado foi de 9,7%. Não só a primeira-ministra Sanae Takaichi é favorável a maiores gastos em Defesa (e a votação massiva que obteve nas eleições deste ano mostra que a opinião pública japonesa a apoia), como o presidente americano Donald Trump, tal como faz aos parceiros europeus da NATO, pressiona o grande aliado asiático a assumir mais responsabilidades militares.

No caso da China, o facto de o investimento militar durante muito tempo ter crescido a um ritmo abaixo do da economia dava a ideia de que a busca do poder bélico não era uma prioridade, e a comparação com os Estados Unidos também atenuava a perceção da crescente potência chinesa. Hoje é evidente que a China investe fortemente nas suas capacidades militares, sendo isso muito evidente em termos de meios marítimos. O país já tem três porta-aviões e um quarto está em construção. Uma vez mais, só os Estados Unidos suplantam a China, com 11 porta-aviões, todos de propulsão nuclear. O Japão tem quatro porta-helicópteros, dois dos quais podem ser adaptados para porta-aviões ligeiros.

Os gastos militares em 2025, segundo os cálculos do IISS, baseado em Londres, são diferentes dos do SIPRI, sobretudo em relação à China: 921 mil milhões de dólares os Estados Unidos, 251,3 a China e 58,9 o Japão. As posições relativas são iguais no caso dos Estados Unidos e da China (1.º e 2.ª, mas o Japão passa a ser 9.º).

"Ao apontar numa conferência, em Singapura, o dedo aos gastos militares da China, o ministro da Defesa japonês, Shinjiro Koizumi, está sobretudo a dar um sinal a Pequim de que Tóquio não se deixará intimidar pelas críticas constantes em sentido contrário. De facto, em vésperas do chamado Diálogo de Xangri-lá, (...), o porta-voz do ministério chinês da Defesa, Jiang Bin, tinha acusado o Japão de neomilitarismo."

A ascensão chinesa, segunda potência económica e segunda potência militar do mundo, é vista como um desafio à supremacia global dos Estados Unidos, que gozaram de um período de superpotência solitária desde a desagregação da União Soviética em 1991. E a nível da vizinhança, é sobretudo Taiwan que tem estado sob ameaça chinesa, pois o presidente Xi Jinping não exclui a reunificação pela força com a ilha onde, em 1949, se refugiaram os nacionalistas derrotados pelos comunistas na guerra civil chinesa.

Mas a China tem uma relação difícil com o Japão, por causa da invasão japonesa dos anos 1930, que só terminou quando aconteceu a derrota nipónica na Segunda Guerra Mundial. Além disso, os chineses não esquecem outros momentos protagonizados pelo vizinho, como a Guerra Sino-Japonesa de 1895, que resultou em 50 anos de colonização japonesa de Taiwan. Por isso, a hipersensibilidade de Pequim quando no ano passado Takaichi fez declarações que ligavam a segurança do Japão ao futuro de Taiwan.

Assim, competição global com os Estados Unidos, alianças hostis e ajustes de contas históricos influenciam a visão chinesa sobre o rearmamento japonês. Isto mesmo que os gastos não estejam ainda nos 2% do PIB e Takaichi ainda não tenha concretizado a revisão do artigo 9.º da Constituição Japonesa pós-Segunda Guerra Mundial, de teor pacifista, pois foi imposta pelo ocupante americano, que entretanto se tornou um aliado.

China e Japão partilham do interesse em manter a Ásia Oriental estável, até porque a prosperidade de ambos os países está interligada, basta ver o volume de trocas comerciais entre eles. Mas cada governo parece determinado a seguir o rumo definido, o que inclui a modernização e o reforço das respetivas Forças Armadas. E as trocas de acusações, assim como a perceção de ameaça que chega junto das opiniões públicas, arrisca causar tensões que podem ser perigosas. Se o Xangri-lá é um ideal de paz, há que trabalhar por ele.

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