Os recentes episódios envolvendo agentes da PSP deixaram-me perplexo e incrédulo. Um excesso policial isolado não me teria impressionado demasiado. Mas quase três dezenas, num período curto de tempo, em apenas duas esquadras, de que resultou a prisão preventiva de 13 agentes da força policial, incluindo duas chefias, e de que existem gravações e vídeo-gravações, que são exemplos infames de brutalidade e horror, era algo que não conseguiria imaginar.Ecoaram no espaço público vozes indignadas: umas, mais preocupadas em diabolizar a polícia como um todo; outras, em culpabilizar as vítimas, em geral, pobres, imigrantes, tóxico-dependentes e outros socialmente excluídos.Um polícia é um agente da autoridade, o que lhe confere poderes que, em defesa da segurança dos cidadãos, se destinam a concretizar a lei, aplicando-a a cada situação da vida (law enforcement é a feliz expressão anglófona). Para defender uma vítima ou pôr termo a uma violação da lei, o polícia pode ter de constranger a liberdade do violador ou, mesmo, ofender a sua integridade física.Esta situação dilemática não é fácil de solucionar. Enfrentando uma situação imprevisível, quantas vezes só, e tendo de decidir em escassos segundos, o agente tem de fazer uma ponderação rápida dos direitos em conflito: dar um tiro num ladrão de automóveis ou deixá-lo escapar no veículo furtado?A larga maioria dos agentes da PSP, estou certo, cumpre as suas obrigações, respeita os cidadãos e não comete abusos. Alguns perderam a vida por isso.O que mais impressiona é que, diferentemente das situações mais comuns, as violências em causa não ocorreram na rua, nem envolveram qualquer ameaça à integridade física dos agentes. E não têm que ver com o uso de armas de fogo, que se encontra regulamentado. Ocorreram dentro de instalações ou de viaturas policiais, ambientes em que são os polícias e não os supostos delinquentes que se encontram protegidos. Para além do mais, pressupõem uma intolerável cobardia, ao incidirem sobre seres humanos indefesos (que podem ter cometido crimes, mas que não podem ser castigados sem terem sido condenados por um juiz, muito menos submetidos a castigos corporais e abusos físicos e psicológicos).Os agentes que cometeram abusos sobre pessoas que se encontravam à sua guarda são criminosos, que merecem sofrer pesado castigo pelos espancamentos, insultos repetidos, torturas, e abusos psicológicos, cometidos em espaços fechados policiais.Para além das bodycams, impõe-se a instalação de câmeras de vigilância nas esquadras e em todas as viaturas policiais. Noutro plano, deve ser estabelecida a regra, aplicável noutros países, que impõe a absoluta separação entre os agentes que procedem a detenções e aqueles que recebem os detidos nas esquadras e os acompanham.Mais importante que tudo: a melhoria da educação e da cultura cívica dos agentes, por via de regras de recrutamento mais exigentes, é indispensável para uma alteração substancial da situação.