Em menos de dois dias, cerca de 60 mil pessoas entraram ilegalmente em Ceuta – uma cidade com pouco mais de 80 mil habitantes –, muitas a nado, contornando o ponto onde a fronteira deixa de existir. O saldo humano é dramático. O saldo político é devastador.Ceuta tem um estatuto específico no quadro de Schengen, mas isso não altera o essencial: é uma fronteira externa da União Europeia. Quando essa fronteira deixa de ser controlada, o problema deixa de ser espanhol e passa a ser europeu.É impossível analisar esta crise ignorando as escolhas políticas do governo de Pedro Sánchez. A 30 de junho encerrou a regularização extraordinária de migrantes , mais de 1,17 milhões de pedidos apresentados, muito acima das previsões iniciais. Dias depois, a 8 de julho, o Supremo Tribunal espanhol decidiu que os migrantes interceptados no mar ao tentarem entrar em Ceuta ou Melilla não podem ser objecto do mecanismo de rejeição imediata na fronteira.Nenhuma destas decisões explica, por si só, o que aconteceu. Mas seria politicamente ingénuo fingir que são irrelevantes.Quando um Estado comunica que uma permanência irregular pode terminar numa autorização de residência e, simultaneamente, altera inevitavelmente a percepção do risco. E onde existem expectativas, as redes de tráfico encontram um negócio. Vendem esperança, exploram o desespero e convencem milhares de pessoas de que vale a pena arriscar a vida porque, no fim da travessia, haverá uma oportunidade de permanecer na Europa.Também o contexto geopolítico não pode ser ignorado. Depois de Marrocos ter instrumentalizado a pressão migratória sobre Ceuta, em 2021, quem podia alegar surpresa? Os serviços de inteligência alertaram para o risco. Os movimentos em direção a Castillejos e ao Tarajal estavam identificados. Os números eram do próprio Estado: no primeiro semestre de 2026, o Ministério do Interior contabilizou 2582 entradas irregulares em Ceuta, mais 164%, todas por via terrestre.Era um aviso publicado quinzenalmente pelo Governo a si próprio.E um Estado que recebe o aviso, produz ele mesmo os dados, conhece o precedente e, ainda assim, é apanhado desprevenido, tem um problema de governo.Há ainda outra dimensão. Entre os milhares de recém-chegados encontram-se numerosos menores não acompanhados. Cada caso exige um procedimento individual de protecção e eventual repatriamento, quando este seja legalmente possível e conforme ao interesse superior da criança. Enquanto esse processo decorre, cabe ao Estado assegurar o acolhimento. Se os serviços de Ceuta entram em ruptura, a pressão transfere-se inevitavelmente para o restante sistema espanhol, através da redistribuição por outras comunidades autónomas.É neste contexto que a atitude de Pedro Sánchez se torna politicamente errática. Nenhum Governo pode decidir unilateralmente criar um poderoso incentivo à imigração ilegal e esperar que sejam os restantes parceiros a suportar os custos políticos, financeiros e de segurança sobre todo o Espaço Schengen.Talvez o episódio mais revelador desta crise tenha sido diplomático. Pedro Sánchez não convocou o embaixador de Marrocos para exigir explicações ao país de onde partiram as travessias. Convocou o embaixador de Itália, em resposta às críticas do Governo italiano. Preferiu confrontar um aliado europeu do que exigir responsabilidades ao Estado terceiro que tinha o dever de controlar a sua fronteira. A prioridade do Governo espanhol não foi enfrentar a origem da crise. Foi responder a quem expôs o seu falhanço. Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico