Ceuta expôs o desequilíbrio ibérico

Diogo Noivo

Politólogo

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Ceuta caiu da agenda mediática, mas os problemas continuam todos no mesmo sítio. Porque o assunto interessa a Portugal, vale a pena regressar ao exclave espanhol.

Comecemos pela relação de Espanha com Marrocos, gerida nas últimas décadas com base numa lógica saída da Guerra Fria e do alegado fim da História: as interdependências evitam conflitos. Quanto maiores forem os laços comerciais e políticos, mais intensas serão as dependências mútuas e, por conseguinte, menores os incentivos para disputas.

Madrid apostou então num “colchão de interesses” com Rabat: economia, política, energia e segurança criaram uma espécie de leito matrimonial, domando causas de tensão com décadas de existência.

Portugal beneficia deste arranjo. A Península Ibérica não é uma unidade política, mas é uma unidade geográfica. Há vantagens gerais, em particular no combate ao terrorismo, ao narcotráfico e à imigração ilegal.

Mas o “colchão de interesses” não se aguenta sozinho. Assenta num estrado feito de equilíbrios de poder. Perante a crise em Ceuta, dois desses equilíbrios assumem particular relevância.

Primeiro, a hegemonia no Magrebe. Espanha procurou sempre equilibrar as pretensões de Marrocos e da Argélia, países vizinhos e rivais que lutam por uma posição dominante na região.

Os deslizes de Madrid pagaram-se caro. Como forma de pressão, punição ou chantagem, a Argélia treinou terroristas ETA e Marrocos nunca hesitou em usar a imigração ilegal como uma arma.

Mas a pressão também funcionava no sentido inverso. As provocações vindas do Sul embatiam em forte dissuasão de Madrid: em 1978, o presidente do governo Adolfo Suárez explicou ao rei Hassan II que lhe bastavam 48 horas para bombardear Rabat; décadas mais tarde, em 2002, José María Aznar reagiu a uma provocação marroquina projectando o poderio militar espanhol sobre o pequeno ilhote de Perejil.

Ora, ao inclinar-se para o lado marroquino, Pedro Sánchez inovou e desequilibrou profundamente a política externa espanhola. Expôs-se aos apetites de Rabat. E aos humores de Argel. Quando tenta reequilibrar a relação, como fez na recente visita de Estado à Argélia, sofre as consequências do lado marroquino – a crise em Ceuta é disso prova.

A inovação teve outra consequência. A tradicional neutralidade espanhola face ao Saara Ocidental, que remetia o contencioso para o âmbito da ONU, obrigava Marrocos a dedicar bastante energia diplomática ao assunto. Ao inovar e acolher as ambições marroquinas, o actual governo de Espanha deixou Marrocos com tempo e recursos para outra reivindicação habitual: soberania sobre Ceuta e Melila.

O que nos leva ao segundo equilíbrio, o transatlântico. Marrocos é o parceiro mais antigo de Washington no Magrebe. Com a actual Administração, os laços estreitaram-se, ao ponto de, em 2020, Trump reconhecer a soberania marroquina sobre o Saara em troca da normalização de relações de Rabat com Israel.

Portanto, Espanha está obrigada a zelo extremo na sua relação bilateral com os Estados Unidos da América, sobretudo agora, quando este país já não é uma potencia benigna para a Europa.

Sánchez fez o contrário. O ‘não à guerra’ no Irão, puro agitprop para efeitos internos, hostilizou deliberadamente Washington, comprometendo os interesses espanhóis no Mediterrâneo.

Como lembrou Luis Simón, do Real Instituto Elcano, Ceuta, Melila, as Canárias e o Saara Ocidental são a primeira linha de defesa da Península Ibérica a sul, um perímetro de segurança avançada.

Em artigo no El Mundo, explicou que os Estados raramente esperam que os desafios cheguem às suas fronteiras. Procuram mantê-los o mais longe possível do seu território. Esta profundidade estratégica reduz vulnerabilidades e permite gerir ameaças antes que se transformem em riscos existenciais.

Eis a importância de Ceuta para o conjunto da Ibéria. Acresce a estabilidade no acesso ao Mediterrâneo, que não é só do interesse de Espanha, mas também da restante Europa.

Marrocos foi sempre essencial para a Península Ibérica. E foi sempre um parceiro refratário. O que mudou? A política externa espanhola que muito contribuía para manter Rabat no lugar que mais nos convém.

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico

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