Ceuta tem uma história que vem de muito longe - dos fenícios, dos cartagineses, dos romanos, dos visigodos, dos bizantinos. Uma história que aprendi na infância no Eurico, o Presbítero, de Herculano, que então líamos e ouvíamos nos folhetins radiofónicos da Emissora Nacional.Justiniano I conquistou-a em 534. Depois, Sisebuto, rei dos visigodos entre 612 e 621, retomou-a em 615. E foi em 710-711 que o conde Julião, governador da praça, movido por inimizades e ressentimentos contra Rodrigo, rei dos visigodos, ajudou os muçulmanos de Tárique a passar o estreito e a invadir a Espanha goda. Setecentos anos depois de Tarique, D. João I de Avis, acompanhado pelo Condestável e pelos filhos, iniciava ali o tempo de conquistas e descobertas que daria a Portugal a massa crítica territorial, económica e política necessária para escapar à hegemonia castelhana na Península.Mas, com a crise dinástica aberta pela expedição de D. Sebastião a Marrocos, que se selou no Desastre de Alcácer Quibir, perdia-se o que a expansão e uma política prudente no século XV tinham garantido. Em 1580, Filipe II impunha pela força os seus direitos à coroa de Portugal; e quando nos libertámos, em 1640, Ceuta ficaria espanhola.Ceuta esteve sempre em tensão com os vizinhos do Islão e protagonizou alguns episódios impressionantes, como o cerco de 33 anos (de1694 a 1727) que sofreu às mãos do sultão Mulai Ismail, recordista histórico da arte da poliorcética.No século XIX, os conflitos com os marroquinos e cabilas foram frequentes e, na abertura do século XX, Marrocos foi teatro de tensões franco-espanholas, seladas pelos acordos de Novembro de 1912, com vários incidentes político-militares até ao termo da Guerra do Rif. Em 1931, veio a República espanhola e, no Verão de 1936, Ceuta e Marrocos foram o ponto de partida do movimento militar franquista, que partia do Norte de África, com cerca de 20.000 legionários e “auxiliares” marroquinos (encorajados pelo sultão a combater a “guerra santa” contra os “comunistas ateus”) a cruzarem o estreito.A 30 de Julho de 2026, outra vez cerca de 70 mil marroquinos, na sua maioria homens e jovens, invadiam a cidade espanhola, desencadeando nova crise europeia, já que, perante a “invasão”, os governos de Paris e de Roma assumiam posições firmes de fecho de fronteiras, propondo até a exclusão de Madrid do Espaço Shengen.Daqui passámos ao arremesso de culpas, com os líderes do Partido Popular e do Vox a responsabilizarem o laxismo migratório do primeiro-ministro Sánchez pela “operação civil especial”.É certo que Marrocos tem como objectivo estratégico libertar os enclaves espanhóis – Ceuta e Melila; talvez por isso Rabat tenha deixado que se propagasse a “carta de chamada”, a partir de uma decisão judicial espanhola, não impedindo ou até encorajando a partida dos migrantes, e atirando as culpas para “as máfias”. Entretanto, a Administração Trump e alguns republicanos no Congresso apressavam-se a pôr em causa a soberania espanhola nos “exclaves”.Foi na reunião de emergência dos ministros do Interior da União Europeia, em Bruxelas, na passada terça-feira, depois de 22 dos 27 terem censurado Sánchez e Madrid, e de a Itália ter suspendido Shengen nas deslocações aéreas e marítimas, que se deu o milagre: o até hoje desconhecido comissário para as Migrações, o austríaco Magnus Brunner, atirou as culpas para “os mafiosos”, no que foi secundado pelo ministro francês. Subitamente, todos os presentes, incluindo o italiano Piantedori, ajoelharam, esconjurando “os mafiosos” e declarando a sua absoluta solidariedade para com Espanha.Milagre de Bruxelas?. O autor escreve de acordo com a antiga ortografia