Cartada nuclear de Trump na velha aliança com os sauditas

Helena Tecedeiro

Editora-executiva do Diário de Notícias

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Quando em maio de 2017 escolheu Riade para a primeira visita ao estrangeiro como presidente, Donald Trump quebrou a tradição de dar prioridade aos vizinhos México ou Canadá. Na bagagem, levava um acordo de venda de armas de 350 mil milhões de dólares e a confirmação de que, mesmo se a relação entre a Arábia Saudita e os EUA tem tido altos e baixos, os EUA contam com os sauditas como aliados no difícil Médio Oriente.

Desde que, em 1945, o presidente Franklin Roosevelt e o rei Ibn Saud estabeleceram um entendimento formal de segurança americana em troca de estabilidade no fornecimento de petróleo saudita, num encontro a bordo do USS Quincy, no Canal do Suez, que Washington e Riade têm mantido a parceria. Um dos pontos baixos foi em 1973, quando a Arábia Saudita liderou o embargo petrolífero contra países que apoiavam Israel na Guerra do Yom Kippur, incluindo os EUA. Tal não impediu Washington de enviar centenas de milhares de soldados para defender a Arábia Saudita após a invasão do Kuwait pelo Iraque em 1990. O ponto mais baixo chegaria, contudo, em 2001 quando o facto de 15 dos 19 terroristas dos atentados de 11 de Setembro serem sauditas fez crescer a desconfiança em relação ao reino. Mas se surgiram críticas ao financiamento de correntes extremistas, depressa a cooperação antiterrorista retomou.

Agora, com Trump de novo na Casa Branca - e nas visitas ao estrangeiro, em 2025, voltou a dar prioridade a Riade -, a aliança atingiu novo patamar há dias, quando os sauditas se juntaram aos americanos numa operação militar contra milícias pró-iranianas no Iraque. Perante o dilema de se manter afastado da guerra ou continuar a responder aos ataques iranianos, o reino arrisca ser arrastados para um conflito onde ficaria do mesmo lado que Israel. Mesmo que do outro lado esteja o Irão, seu rival.

Até agora, o Irão xiita e a Arábia Saudita sunita confrontaram-se à distância, com cada um a apoiar lados diferentes nos conflitos na Síria, Iémen, Iraque ou Líbano.

Mas este não é o único dilema com que o príncipe Mohammad bin Salman, herdeiro da coroa e líder de facto da Arábia Saudita, tem de lidar por estes dias. É que depois de, no dia 22, anunciar um acordo de cooperação nuclear para fins civis que permitiria aos sauditas enriquecer urânio (além das nove potências que têm a bomba, só cinco países o fazem: Brasil, Argentina, Países Baixos, Alemanha, Japão. E o Irão, antes da guerra), Trump recuou no enriquecimento e fez depender o acordo de Riade se juntar aos Acordos de Abraão.

Se pensarmos que o voo que em 2017 levou Trump de Riade para o Aeroporto Ben Gurion foi o primeiro entre o reino saudita e Israel, não espanta que o presidente americano jogue agora a cartada nuclear para convencer MBS a juntar-se a Emirados, Bahrein, Sudão e Marrocos na lista dos países árabes que normalizaram relações com Israel. Veremos se convence o príncipe a juntar-se ao que gosta de chamar “a madrugada histórica de um novo Médio Oriente”.

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