O vento ouve-se, se soprar forte. E por isso começo com estrondo, na esperança de que possamos pensar em conjunto acerca de um tema que tem dividido a sociedade portuguesa: o que estamos a fazer com a AIMA é uma traição à Pátria, uma deslealdade aos nossos 900 anos de História, o ressuscitar de uma inquisição não-inteligente. Ver brasileiros em fila de espera a ser tratados como se não falassem a mesma língua, como se não fossem o resultado do que ousámos, do nosso sangue, da nossa capacidade e loucura de irmos ao encontro do que desconhecíamos, ao encontro do outro, dos outros, é um ultraje. Este é o nosso sangue que regressa e estamos a expulsar uma parte importante dessa nossa gente, a abrir-lhes a porta para que possam fugir para Espanha ou para a Itália. Nunca ninguém quis vir para cá e agora querem vir e nós expulsamo-los e condenamo-los a intermináveis filas de espera?
Temos de tratar bem as pessoas que nos procuram. Demos a língua portuguesa aos brasileiros e a língua portuguesa oferece-nos um futuro que não era nada linear que tivéssemos. Em 2025, os trabalhadores brasileiros descontaram 1,47 mil milhões de euros para a Segurança Social que apresentou um excedente com uma dimensão poucas vezes vista. Para o Conselho de Finanças Públicas, os estrangeiros já contribuem com 19,7% de todo o sistema financeiro. O Banco de Portugal informou o país de que a idade média dos trabalhadores portugueses é de 42 anos e a dos estrangeiros de 33. Sem eles, sem a comunidade brasileira, o número de nascimentos seria menor do que o número de mortes.
É evidente a necessidade de regulação e de uma adequação aos tratados de uma União Europeia de que fazemos parte, mas somos portugueses, não apenas europeus ou mediterrânicos. Fazemos fronteira com o Atlântico, foi a partir desse Oceano que sonhámos. Tornámo-nos maiores por termos a capacidade de ousar, de nos misturar, de dar e receber. Portugal é o resultado de tudo isto, não do “orgulhosamente sós” que obedeceu a um momento histórico excecional no devir do país. Mas mesmo nessa época, tínhamos o Ultramar e, assim, nunca estivemos sós. A nossa diversidade é o resultado do mar, dos cabos que enganámos, das caravelas que construímos, dos amigos que fizemos, das experiências que trocámos.
Os brasileiros são parte de nós. E a chave para crescermos. São já hoje a força dominante do trabalho na agricultura, no turismo e nos serviços, mas o Brasil é também a aeronáutica, a tecnologia de ponta, a medicina, a engenharia, a arquitetura, a energia, a cultura. Se estamos a envelhecer tão rapidamente, se os nossos bebés são em menor número do que os portugueses de que nos despedimos, vamos ter futuro com quem? Com os alemães? Com ingleses ou franceses? Com turcos ou polacos? O Brasil tem otimismo, dimensão e crescimento económico. Os seus produtos, a soja, o petróleo, os biocombustíveis continuam, só para dar um exemplo, a entrar por Roterdão quando todos estes movimentos poderiam ser feitos através de Sines com um ganho de quatro ou cinco dias.
Em Torres Vedras temos dado o exemplo. Acabámos de fechar com Sérgio Galvão, presidente da Câmara de Torres Vedras, uma cedência onerosa de terrenos à autarquia com vista à construção de habitação a custos controlados que beneficiará portugueses, não portugueses e brasileiros. Não é por acaso que Torres Vedras está na vanguarda do trabalho jovem, é o concelho com mais trabalhadores jovens na agricultura, uma marca que nos orgulha e responsabiliza. Um dos concelhos que mais tem crescido economicamente. Não desvirtuemos as coisas. A Pátria não pode ser defendida por populistas que, na verdade, não compreendem nada sobre a História de Portugal e, ainda menos, sobre o nosso destino e identidade.
manuel.guerreiro@ccamtv.pt