Bora conversar

Patrícia Reis

Jornalista e escritora

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Vivemos na urgência de emitir opinião. Antes de escutar, já estamos a preparar argumentos. Antes de pensar, já estamos a vender uma ideia qualquer, uma certeza pronta a consumir, uma indignação instantânea. Tornámo-nos vendedores. Vendemos grandezas improváveis, estilos de vida impossíveis, soluções mágicas e, acima de tudo, vendemos zanga, produto altamente rentável do nosso tempo.

Olhem para isto. Façam como eu. Pensem como eu. Escolham este lado. Desconfiem do outro.

Os discursos repetem-se até à exaustão e, no meio deste ruído permanente, a dúvida passou a parecer uma fraqueza. Há pouco espaço para hesitar, ponderar ou simplesmente admitir que não sabemos. Tudo precisa de ser imediato, definitivo, partilhável. E assim seguimos no carril construído por outros, convencidos de que escolhemos livremente o caminho.

Resistir implica interromper a corrente de ideias embaladas como verdades. Implica desconfiar da facilidade com que aderimos ao que confirma os nossos medos ou alimenta as nossas raivas. E implica também aceitar uma evidência desconfortável: muitas vezes acreditamos não porque tenhamos pensado, mas porque é mais cómodo acreditar.

Os fact-checks sucedem-se, os polígrafos desmontam mentiras, revelam manipulações, expõem falsidades evidentes. Mas quase nada acontece depois disso. Encolhemos os ombros com um certo cansaço resignado: era mentira, afinal. E seguimos caminho. A mentira deixou de escandalizar porque se tornou rotina.

Escrever continua, por isso, a ser uma forma de resistência. Ler também. Não por romantismo, mas porque ambas as coisas exigem tempo, atenção e pensamento. Um livro obriga-nos a parar, uma conversa verdadeira obriga-nos a ouvir. E talvez seja precisamente isso que mais ameaça certas agendas políticas e alguns modelos de comunicação: pessoas capazes de pensar sem instruções prévias.

Questionar tornou-se cansativo. E, no entanto, é precisamente dessa inquietação que nasce a democracia. Talvez o maior problema seja o cansaço. Um cansaço profundo, difuso, difícil de explicar. A sensação de que estamos permanentemente ligados ao mundo e, ao mesmo tempo, cada vez mais afastados uns dos outros. Como chegámos aqui? Haverá muitas respostas e poucas soluções simples.

Mas talvez exista um princípio possível: conversar.

Conversar a sério. Sem slogans, sem trincheiras instantâneas, sem a obrigação de vencer o outro ao fim de trinta segundos. Talvez por isso iniciativas como o movimento Bora, promovido pelo eurodeputado Bruno Gonçalves junto das escolas, sejam mais importantes do que parecem. Porque os mais novos precisam de lugares onde seja possível discordar sem destruir, ouvir sem humilhar e pensar sem medo. No fim, talvez seja mesmo isso que nos falta: menos ruído, mais conversa.

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