Boas notícias da Hungria

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Vivemos hoje entre guerras e ameaças, retrocessos e desastres, situação que pode certamente reforçar o nosso desejo de escapar para um jardim interior ou de limitar a nossa atividade aos mais paroquiais e familiares contactos.

Não é inteiramente ilegítimo esse desejo: se nos concentramos no terror do mundo, acabamos por perder qualquer atenção à beleza do mundo.

E a atitude consciente e lúcida de quem não quer deixar de estar atento não pode tornar-se numa fixação doentia na demência mortal para que nos arrastam os pretensos donos do mundo, esquecendo-se da vida “vê-la desfiar seu fio, que também se chama vida, ver a fábrica que ela mesma teimosamente se fabrica”, como escreveu João Cabral de Melo Neto. O nosso dever é ficarmos intransigentemente do lado da vida que continua, contra todos os arautos da morte que ocupam o nosso espaço e o nosso tempo.

A derrota esmagadora de Viktor Orbán na Hungria é uma boa notícia, no meio das desgraças com que somos todos os dias confrontados. Peter Magyar é um político da área cultural conservadora a que pertence o Fidesz, de que foi membro até há pouco tempo. Mas a votação que obteve, na qual convergiram esquerda e direita, campo e cidade, e uma impressionante maioria de jovens, mostra um desejo de mudança, que o seu partido Tisza não poderá ignorar e que a maioria de 2/3 que obteve lhe permite concretizar, enquanto governo.

As redes de interesses criados e as cláusulas legais e constitucionais montadas para dificultar uma verdadeira alternância deverão ser os primeiros objetivos de Peter Magyar. “Libertámos a Hungria” foi a sua primeira proclamação.

Em relação à União Europeia, existe um mesmo desejo de mudança e Trump e Putin sofreram uma clara derrota. Mas em política externa o peso das realidades conta mais e talvez as posições do novo governo húngaro quanto à Rússia, de que a Hungria ainda depende em termos energéticos, e da Ucrânia, com quem subsistem contenciosos vindos da História (a situação da minoria húngara na antiga Ruténia Carpática), venham revelar alguma maior moderação numa política que estará agora virada prioritariamente para desmontar o sistema de poder interno montado por Orbán.

Mas é claro que a atitude em relação à União Europeia irá mudar e desanuviar-se. E bem mais recente que os contenciosos com a Ucrânia, a triste memória da dominação soviética e da invasão de 1956 viu-se profundamente ferida com a divulgação pública dos votos de amizade eterna trocados entre Putin e Orbán e do papel de agente russo desempenhado pelo ministro húngaro que relatava a Moscovo todas as discussões sigilosas em que participava nas reuniões europeias.

Derrota de Putin e não menor derrota de Trump, que deu todo o seu apoio a Orbán, enviando o vice presidente Vance a Budapeste participar no comício de apoio ao FIDESZ, com mensagem telefónica pessoal sua para os participantes naquela manifestação.

Temos razões para nos sentirmos hoje mais confiantes na força da democracia.

Diário de Notícias
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