Aventura, noite e eclipse

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As multidões do mundo contemporâneo são, com frequência, encenações que tendem a apagar a solidão de cada uma das suas personagens. “Não vale a pena discutir a solidão. É uma perda de tempo” – diz Ester (Ingrid Thulin), uma das duas irmãs que Ingmar Bergman filmou em O Silêncio (1963). Talvez não valha mesmo a pena, talvez seja mais urgente tentar compreender o que realmente acontece nessas encenações em que procuramos os êxtases prometidos pelos mais poderosos, com destaque para os publicitários, os influencers e os gurus televisivos.

Deixámos de ser uma sociedade em que se partilham acontecimentos. Aliás, os acontecimentos mudaram de nome: são eventos, vivemos num presente tecido de eventos. Há mesmo uma classe de almas penadas, a que alguma imprensa atribui a designação de “famosos”, cujos membros não possuem qualquer dimensão existencial a não ser a que adquirem através da circulação por... eventos. Tudo é ou pode ser evento, correndo-se o risco de, nesse processo de pueril ecumenismo, se perder qualquer possibilidade de relação – o que conta é tão só a afirmação redundante do evento... como evento.

Alain Delon e Monica Vitti, sob o olhar de Antonioni.
Alain Delon e Monica Vitti, sob o olhar de Antonioni. FOTO: Arquivo

Através da irrisão das suas imagens, potenciada pelas rotinas televisivas, o evento serve, assim, de equívoca exposição. O coletivo não passa de um espasmo de histeria. O individual perdeu qualquer singularidade, limitando-se a exibir a sua inscrição no coletivo. Trata-se, de facto, do apagamento de algo que não vemos ou não queremos ver, sobretudo de algo que não compreendemos e não queremos arriscar compreender – à falta de melhor, darei a essa ocultação social e simbólica o nome de eclipse.

Pensei, confesso, no filme O Eclipse, obra-prima de 1962 com que o italiano Michelangelo Antonioni encerrou a sua “trilogia a preto e branco”, depois de A Aventura (1960) e A Noite (1961). Arrisquei entrar no jogo perverso do virtual e decidi colocar esta pergunta ao Google: “Que espécie de eclipse acontece em O Eclipse, de Michelangelo Antonioni?”

Obtive como resposta (com a indicação “vista geral de IA”), um curioso esclarecimento. Assim, no filme de Antonioni “não acontece nenhum eclipse astronómico visível no enredo”. E a explicação continua: “O título da obra é uma metáfora poética e existencial. O realizador italiano usou a palavra ‘eclipse’ para representar o apagamento progressivo dos sentimentos, da capacidade de amar e da comunicação genuína entre as pessoas na sociedade moderna.”

Em boa verdade, é simpático que a IA ecoe considerações que alguns críticos de cinema repetem há mais de meio século, não poucas vezes suscitando o sarcasmo de outras mentes de mais elevado estatuto. Entenda-se: a resposta padece, a meu ver, da velha confusão que tende a reduzir os filmes aos seus “temas” – basta ligar o televisor para depararmos com mais uma telenovela também sobre o “apagamento progressivo dos sentimentos”, mas convenhamos que só mesmo por gosto do insulto se poderá sugerir que existe algum paralelo entre a sua miséria narrativa e o labor de um cineasta como Antonioni. Acontece que, com ou sem IA, sabe bem encontrar algum discurso capaz de nos recordar que há um cinema que pensa, que não ostracizou os prazeres e angústias da nobre arte de pensar.

Em 1962, Michelangelo Antonioni fez um filme sobre “o apagamento progressivo dos sentimentos”. Com um curioso título: 'O Eclipse'.

No cruzamento dos olhares de Monica Vitti e Alain Delon (Vittoria e Piero), ou na impossibilidade de se cruzarem, eclipsando-se um no outro, Antonioni filmou o radicalismo de uma solidão que, ainda assim, não desistiu das palavras – ou, talvez melhor, da literatura, entendida como trabalho quotidiano, árduo e infinito, através dos enigmas que as palavras transportam. Vittoria di-lo a certa altura a Piero: “Quem me dera não te amar ou amar-te muito mais.”

Enfim, talvez valha a pena repensar o pessimismo da personagem de Bergman. Não servirá de “explicação” do que quer que seja, mas lembrei-me que os dois cineastas morreram no mesmo dia, 30 de julho de 2007 – Bergman com 89 anos, Antonioni com 94.

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