Atrelados

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Parece tão exótica a situação a propósito do atual ministro da Administração Interna que é difícil escrever sobre ela. A posição mais prudente é a de nada dizer: quando pouco se sabe e o que se sabe surge como extraordinário, mesmo podendo não o ser, talvez o melhor seja simplesmente pousar a pena. Mas há um elemento que, entre outros, incomoda. E esse chama-se atrelado.

É certo que, quando se está em baixo, há alguns, muitos, que aproveitam para se dependurar no peso e procurar rebaixar adicionalmente o caído, especialmente se este foi quase uma década dirigente do mais relevante órgão de investigação criminal, condição em que se fazem mais inimigos do que amigos. O que começou como um tanque travestido e que até poderia ter boa solução, acaba como atrelado, grande, pesado, apreendido à ordem de um processo-crime, mas que se move...

O que tem sido publicado é muito mau, como todos concederemos. O que pode ter levado um atrelado apreendido, palavra atrelado sobre a qual a larga maioria não se terá detido mais do que um microssegundo na vida, a desaparecer do Seixal e reaparecer em Barcelos? Das instalações da Marinha aos pertences de um marinheiro de água doce?

Por outro lado, tem isto de facto relevância para a vida pública nacional? Para as grandes decisões da nossa comunidade? Para a governação? Naturalmente que não tem. Um atrelado, palavra da qual agora abusamos, não tem nenhuma importância. A importância é só dada pela falta de uma resposta, que deveria ter chegado há alguns dias, e a propósito da qual nenhum inquérito instaurado pelo Ministério Público deve ou pode obstar. E, já agora, o eleitor comum está completamente ao lado da questão.

É forte a probabilidade de haver uma explicação, racional e legal, para este destino. O mundo das apreensões de bens é insondável para o comum dos mortais, até porque nunca ninguém o quis verdadeiramente conhecer, indo além da retórica legal. Desconfio até que se mantenha em vigor um diploma da 1.ª República que manda depositar na Caixa Geral de Depósitos todos os valores apreendidos em processos em Portugal. O que convém bastante ao Estado, diga-se. Talvez devessem ser geridos, maximizados e tal. Talvez não o sejam. Seria bom perguntar-se qual o valor que o Estado tem à sua guarda neste momento, só em euros, para além de todos os demais bens.

A indiferença dos tribunais a este mundo de pertences pós-despacho também não ajuda. Alguém fica com a criança nas mãos. Recordo até um momento em que o Estado ficou com uma quinta de produção de vinho, no Douro, de um dia para o outro, em plena laboração, apreendida num processo. Não conheço o desfecho, mas imagino que não tenha sido o melhor.

Vamos esperar - pouco tempo - por respostas. Uma resposta é melhor do que uma ausência. Até porque os silêncios são sempre preenchidos e nem sempre pela verdade.

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