As ‘summits’ do ‘Business’ Educativo

Paulo Guinote

Professor do Ensino Básico

Publicado a

Sou tão antigo que ainda me lembro de, no tempo das lendas e dos animais falantes, existirem debates, conferências, colóquios ou mesmo congressos sobre Educação. Ainda não me habituei à moderníssima prática das summits, mesmo quando se realizam em Portugal sobre a Educação Portuguesa. Só neste mês foram umas três (mais uma na Madeira, mais tradicional), concentradas em pouco mais de uma semana. Estranho, e não entranho, a ideia de que se não tiver um título em inglês a coisa perde impacto ou atrai menos gente.

Parece que uma pessoa, na Estónia, digamos assim, ao receber um convite para falar numa conferência, apenas para efeitos de exemplo, em Oeiras, sobre Educação, Transformação Social e Desenvolvimento Económico, fica entediada de morte, enviando de imediato o dito convite para o lixo físico ou digital, mas… se receber uma invitation para um Education Forum no Oeiras Valley já passa a rejubilar de entusiasmo e aceita ASAP.

Do mesmo modo, qualquer mediano especialista ou uma personalidade de notoriedade transitória não sentirá especial motivação para ser orador ou participante num colóquio, mas já se for apresentado como keynote speaker numa summit (international, if possible) já é toda uma outra dimensão que só pela designação acrescentará brilho e prestígio à próxima versão da nota curricular (CV note).

E há ainda que considerar que, mesmo ao nível da captação do público, deve existir o cuidado de acrescentar a este anglicismo cosmopolita a sofisticação das designações dos participantes, pois já se foram os tempos de doutores & engenheiros, que o que agora chama a atenção é ser-se founder, partner ou CEO de qualquer coisa com um nome alegre e inspirador. A ser em língua nativa, que seja algo inovador como “criador@ de conteúdos” ou, como li recentemente, “facilitador de transições sociais e sistémicas” num evento realizado na Coimbra Business School (pouco dias depois de, na mesma cidade se ter realizado a Job Summit IPC & Science2Business no Instituto Politécnico local e um mês depois da Portugal Happiness Summit 2026).

Como referi, tivemos direito a três iniciativas deste tipo num curto espaço de tempo, cada uma com tonalidades próprias, mas sempre com a preocupação de anunciar um debate sobre a “transformação”, o “futuro” e a “inovação”, palavras omnipresentes no discurso de todos os que se querem introduzir (mais) nos negócios da Educação.

António Sampaio da Nóvoa passou pelas três, com intervenções interessantes e ponderadas, baseadas no seu conhecimento da realidade da Educação em Portugal, mas o que se lhe seguiu foi quase sempre, e em movimento descendente, um corrupio de banalidades, de autocomplacência e do anúncio de “projectos” e “parcerias” diversas, com a presença abrilhantadora de animadores, de jornalistas com agenda livre a figuras menores do entretenimento.

Num dos casos, o mais claramente virado para o empreendedorismo educativo, para que tudo corresse da forma adequada e tranquila, não fosse alguém dizer algo inconveniente para a narrativa dominante, até se fizeram encontros prévios dos participantes e moderadores das sessões, a quem se forneceram guiões com o tempo e conteúdos das intervenções, ou mesmo uns cartões com as perguntas a fazer e a sua ordem.

Ao que parece o futuro, transformador e inovador, deseja-se assim, formatado, previsível e domesticado pelas parcerias interessadas. A shitty future, if I may.

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico

Diário de Notícias
www.dn.pt