As manhãs depois das eleições

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“Tous les matins du monde
sont sans retour”.”

Pascal Quignard


Escrevo de Paris, na manhã de segunda feira, depois das renhidas eleições municipais em França. Como entre nós, e num panorama que se vai estendendo por todo o chamado mundo Ocidental, enfrentam-se aqui três blocos: uma extrema-direita em crescimento numérico, que não viu, contudo, a sua consagração nas principais cidades e continua a alcançar os seus êxitos mais no Sul da França; uma direita republicana, que hesita entre a aliança com os extremistas (como fez Ciotti, que conquistou a Câmara de Nice) e a manutenção da sua independência e da sua (ó, tão esquecida) raiz gaullista; e, finalmente, uma esquerda, que hesita entre a aliança com a extrema-esquerda de Mélenchon e a apresentação independente dos seus projetos e valores.

Os resultados mais positivos conquistados pela esquerda que disse não aos insubmissos de Mélenchon (Paris, Marselha, Lyon, Estrasburgo, onde os socialistas chegaram ao ponto de fazer uma aliança à direita, condenada pela direção do partido) e os resultados, não tão brilhantes, mas animadores, dos republicanos que não seguiram a via de Ciotti de total fusão com a extrema-direita, fazem pensar que um discurso mais sereno e consequente poderá fazer o seu caminho dentro das diferentes e opostas forças políticas que disputam o poder em França.

Porque o grande derrotado tem sido Macron e a sua tentativa de esconder as diferenças entre esquerda e direita, para prosseguir uma política de direita disfarçada de pretenso modernismo e a proclamar a ausência de alternativas reais na política e na sociedade. Que a direita republicana recupere alguma força, tomando, sem a extrema-direita, Toulouse, Limoges e Bordéus e que a esquerda, sem Mélenchon, consiga conquistar os grandes centros urbanos, como Paris, Marselha, Lyon ou Lille, são sinais de vida animadores.

Não cantemos vitória antes de tempo: o partido de Marine Le Pen e Jordan Bardella “progride sem conquistar”, na expressão de um analista do Figaro. Mas a sua progressão em número de votos é inegável, mesmo que não conquiste os maiores objetivos do Rassemblement National.

As análises destas eleições têm maioritariamente sido feitas do ponto de vista do que elas poderão anunciar para a eleição presidencial de 2027 e como irão influenciar as estratégias dos partidos e das personalidades com vista a essas eleições. O antigo primeiro- -ministro e ex-macronista Édouard Philippe, ao vencer, fora dos grandes partidos, a eleição no Havre, conquistou o seu lugar na lista dos potenciais candidatos.

Do meu ponto de vista pessoal, o que sinto cabe na manchete do Libération: “Une gauche soulagée.” Alívio é o que sinto e solidariedade com os socialistas franceses. E uma dúvida final: contra a orientação da direção do Partido, a socialista Johanna Rolland venceu em Nantes com o apoio da France Insoumise de Mélenchon. E esta vitória de Johanna Rolland, que ousou essa aliança, leva-nos a concluir que, em sede de eleições municipais, os fatores locais, pessoais e de trabalho feito muitas vezes vêm sobrepor-se às diretivas centrais dos partidos.

Gosto também de ver (apesar das derivas de muitos à direita, como Ciotti) o presidente dos Republicanos, rejeitar “a desordem em que nos precipitaria o programa do RN” (Rassemblement National, partido de Le Pen e Bardella). O binómio esquerda-direita continuará sempre a fazer-nos falta.


À memória de Lionel Jospin

CITAÇÃO DA SEMANA

“Se Paris vale bem uma missa, como disse
Francisco I, ao converter-se ao catolicismo
para conquistar Paris, a Câmara de Paris
não valeria uma aliança de toda a esquerda?

(ouvido de uma votante socialista).

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