As alterações climáticas e o excesso de calor

Filipe Froes

Doutorado em Saúde Pública e membro do Conselho Nacional de Saúde Pública

Publicado a
“Quando o tempo
estiver quente, mantenha
a cabeça fria. Quando o tempo
estiver frio, mantenha
o coração quente.”
 
 
Ajahn Brahm

Nascido Peter Betts, em Londres,

monge budista e professor de meditação,

conhecido pelos seus

ensinamentos bem-humorados (1951)

Segundo o Programa Copernicus, criado pela União Europeia no âmbito da sua política espacial e ambiental para a observação da Terra, o mês de junho de 2026 foi o mais quente na Europa Ocidental desde 1991. Registaram-se temperaturas próximas de valores recorde, em parte impulsionadas pelo aumento da temperatura da superfície do mar. Esta elevação está associada ao aquecimento anómalo das águas do oceano Pacífico e pode contribuir para o reaparecimento do fenómeno natural El Niño, com potenciais consequências nos próximos meses.

Ainda de acordo com a reputada agência espacial norte‑americana NASA, National Aeronautics and Space Administration, há evidência inequívoca de que a Terra está a aquecer a um ritmo sem precedentes, sendo a atividade humana a principal causa.

O aumento das temperaturas tem profundas repercussões na saúde das populações. O risco não depende apenas da temperatura, mas também da humidade, da qualidade do ar, do vento, da radiação solar e do tempo de exposição. O perigo surge quando o corpo produz mais calor do que consegue libertar, sendo a transpiração o principal mecanismo de arrefecimento.

A Direção-Geral da Saúde emitiu várias recomendações para prevenir os efeitos do calor intenso. Destacam-se a hidratação adequada, evitando bebidas alcoólicas, com cafeína ou com elevado teor de açúcar, o arrefecimento, idealmente com permanência de duas a três horas por dia em ambientes frescos e arejados, a evicção da exposição direta ao sol, sobretudo entre as 11 e as 17 horas, o uso de vestuário claro e largo que cubra a maior parte do corpo, incluindo chapéu e óculos de sol, e a aplicação frequente de protetor solar.

O risco varia significativamente consoante as pessoas expostas, nomeadamente crianças, grávidas, portadores de doenças crónicas, idosos e indivíduos que vivem isolados. Importa salientar que, nos idosos, a sensação de sede é mais tardia e que alguns medicamentos, incluindo fármacos de venda livre, podem agravar os efeitos do calor. Por exemplo, os inibidores da enzima de conversão da angiotensina, frequentemente usados na hipertensão arterial, reduzem a perceção da sede; os antidepressivos e antipsicóticos podem interferir com a regulação térmica; os analgésicos podem diminuir a perceção de sobreaquecimento; e a aspirina reduz a capacidade de vasodilatação.

Se o ser humano é a principal causa do aquecimento global, terá de assumir, com urgência, a responsabilidade pela normalização das temperaturas. Até lá, proteja-se do excesso de calor e mantenha sempre a cabeça fria!

Diário de Notícias
www.dn.pt