O meu pai dizia que era ateu graças a Deus, mas seguia sempre pela televisão a Procissão das Velas. E a minha mãe era devota a Nossa Senhora – na noite anterior ao meu nascimento, num parto em que tudo podia correr mal, rezou à Virgem e sonhou com o bebé que tinha na barriga. Ao acordar fez questão de me descrever a médicos e enfermeiras, tranquilizou-os contando que eu estava bem. Sempre ouvi esta estória e adoro contá-la, talvez por me sentir especial ou apenas por saudades da mulher que arriscou a sua vida para que eu existisse. Fátima é um milagre. Não faço ideia se apareceu às três crianças – as aparições não são sequer um dogma para a Igreja –, mas há qualquer de especial naquele lugar. Uma energia que não parece ser daqui, não sei. A última vez em que lá estive, sentei-me e escrevi perguntas no meu bloco de notas. “Onde começa a humanidade? Onde começa o que somos? Que sopro nos anima? O que realmente importa? Que perguntas não conhecemos? Que palavras estão por inventar? Onde acaba o que acaba? E Deus? Em que parte de nós adormece? Tudo começa quando achamos que termina? Escrevo no meu caderno perguntas sem resposta, poderia estar aqui até ao fim das noites”.. Foi isto que escrevi, mas sem o talento de acertar na frase certa, a que ontem, em Fátima, foi dita por Rui Valério, Patriarca de Lisboa. “Aqui, ninguém é estrangeiro”. Por vezes, é isto. Por vezes, basta isto. A simplicidade de uma frase que tudo diz, que é inquestionável para quem acredita que somos mais do que os nossos miseráveis e terrenos instintos.