Aqui, ninguém é estrangeiro

Luís Osório

Escritor, jornalista e cronista

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O meu pai dizia que era ateu graças a Deus, mas seguia sempre pela televisão a Procissão das Velas. E a minha mãe era devota a Nossa Senhora – na noite anterior ao meu nascimento, num parto em que tudo podia correr mal, rezou à Virgem e sonhou com o bebé que tinha na barriga. Ao acordar fez questão de me descrever a médicos e enfermeiras, tranquilizou-os contando que eu estava bem. Sempre ouvi esta estória e adoro contá-la, talvez por me sentir especial ou apenas por saudades da mulher que arriscou a sua vida para que eu existisse.

Fátima é um milagre. Não faço ideia se apareceu às três crianças – as aparições não são sequer um dogma para a Igreja –, mas há qualquer de especial naquele lugar. Uma energia que não parece ser daqui, não sei. A última vez em que lá estive, sentei-me e escrevi perguntas no meu bloco de notas. “Onde começa a humanidade? Onde começa o que somos? Que sopro nos anima? O que realmente importa? Que perguntas não conhecemos? Que palavras estão por inventar? Onde acaba o que acaba? E Deus? Em que parte de nós adormece? Tudo começa quando achamos que termina? Escrevo no meu caderno perguntas sem resposta, poderia estar aqui até ao fim das noites”.

FOTO: Paulo Spranger

Foi isto que escrevi, mas sem o talento de acertar na frase certa, a que ontem, em Fátima, foi dita por Rui Valério, Patriarca de Lisboa. “Aqui, ninguém é estrangeiro”. Por vezes, é isto. Por vezes, basta isto. A simplicidade de uma frase que tudo diz, que é inquestionável para quem acredita que somos mais do que os nossos miseráveis e terrenos instintos.

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