Estamos a fazer uma aprendizagem coletiva”, opinou Maria Lúcia Amaral quando tanta gente estava a ver as suas vidas destruídas pela inclemência dos ventos e das chuvas. Gente que já tinha, em muito casos, sido privada do essencial pelos incêndios do verão. À ministra da Administração Interna, que se demitiu, e ao Governo que a defendeu, podemos perguntar: que aprendizagem coletiva fizeram essas dezenas de milhar de pessoas? Aprenderam duas coisas.Aprenderam, em primeiro lugar, que o Governo lhes faltou quando mais dele precisavam. Faltou (ainda falta) eletricidade, faltou água, faltaram telecomunicações, faltou ajuda pública para travar a destruição das casas, faltou apoio aos autarcas. E, entretanto, Leitão Amaro filmou-se como action man, Nuno Melo fez das Forças Armadas cenário para autopromoção, Castro Almeida mandou as vítimas usar o seu salário minúsculo para adiantar o pagamento de despesas gigantes e Luís Montenegro falou dos mortos como aqueles que “não conseguiram evitar a trágica consequência de perder a vida”. Uma semana para pôr os militares no terreno, uma semana para aprovar a primeira e pequena tranche de apoios públicos - sim, foi uma intensa aprendizagem coletiva de que o Governo não está à altura do país. Por isso sim, a ministra fez bem em demitir-se.Mas houve outra aprendizagem coletiva feita por quem se viu privado de tudo nestes dias. A de que é a solidariedade espontânea das pessoas que responde, onde o Governo não o faz. A substituição das políticas públicas pela mobilização da solidariedade sem retorno de gente anónima devia ser a vergonha do Governo. Mas dessa aprendizagem coletiva do Governo não há vestígios. E, já ago- ra, os grandes grupos de distribuição e as grandes empresas de construção aprenderam coletivamente alguma coisa com o movimento de solidariedade que encheu os centros informais de partilha de donativos?Desgraçadamente, a aprendizagem coletiva que devia ter sido feita com a repetição, cada vez mais frequente, de fenómenos climáticos extremos não foi feita. Nenhum planeamento, tudo pelo mais baixo custo, ausência do Governo. Tudo a mostrar um país impreparado e a levar ao desespero e à priva- ção as vítimas dessa impreparação, a maioria do costume.Precisamos agora de um socorro amplo. De apoio extraordinário, a quem perdeu rendimento de subsistência, da proteção contra o desemprego, que chegou inesperadamente, da subsidiação extraordinária das rendas de inquilinos vítimas da catástrofe, da isenção de tributação de casas destruídas, de financiamento público integral da reconstrução de vias e redes municipais. Um escudo social para quem sofreu perdas irreparáveis e que adicione a prioridade da solidariedade do Estado à solidariedade da comunidade.E se, finalmente, houver alguma aprendizagem coletiva feita com mais esta calamidade, então planeemos agora o reforço das nossas infraestruturas críticas e o cuidado com os territórios, tanto os hiperpovoados, como os empurrados para a desertificação. Mas mais: aprendamos que não é o mercado que nos põe a coberto da devastação e que não é o individualismo que nos dá força. Sensatez, portanto. E responsabilidade. Não só de Maria Lúcia Amaral, mas de todo o Governo. Aprendamos isso.