Não sei bem se senti algo de diferente quando, pela primeira vez, tive o cuidado de colocar a expressão “alegadamente” antes de qualquer declaração oral ou escrita sobre um determinado facto acerca do qual eu até tinha uma muito razoável certeza. É possível que tenha sido depois de uma série de episódios em que fui obrigado a prestar declarações acerca de algo que escrevi, porque alguém achou por bem apresentar queixa, por se considerar ofendido e alegar que eu escrevera falsidades. O que veio sempre a demonstrar-se não ter fundamento, visto as minhas afirmações serem comprováveis.Sei que, a dado momento, “alegadamente” se tornou um termo demasiado comum em alguns textos meus, como uma espécie de frágil defesa contra potenciais aborrecimentos. Mas notei que não era apenas eu a usar esse recurso. A comunicação social, não apenas a escrita, estava polvilhada de “alegadamente” sempre que se tratava de uma notícia com uma substância mais polémica.Fazendo uma consulta rápida sobre o termo, responde-nos uma qualquer ferramenta digital que “significa que algo é dito, afirmado ou relatado por alguém, mas carece de comprovação definitiva, confirmação oficial ou prova concreta”, sendo “frequentemente usado para indicar suposições, boatos ou versões não-verificadas”. O problema foi quando se tornou necessário usar o “alegadamente” mesmo quando existe algo que foi observado ou ouvido em primeira mão, por vezes por mais de uma pessoa, mas que manda a etiqueta dos tempos que se considere carente “de comprovação definitiva” ou “confirmação oficial”.Repare-se num exemplo recente, relativo a um episódio de violência numa escola do interior do país: o órgão de comunicação social que reportou com algum detalhe a ocorrência optou por referir que três professoras “apresentaram queixa na GNR após terem sido alegadamente agredidas por dois alunos do 1.º ciclo”. Os agressores são sumariamente caracterizados, as “nódoas negras, hematomas e outras lesões” descritas e em outras notícias são adiantados detalhes sobre as agressões, anteriores vítimas e todo o contexto envolvente.Mas… achou-se melhor colocar o “alegadamente” não se vá descobrir que o que foi visto, ouvido ou sofrido não aconteceu ou foi apenas uma questão de percepção de quem terá achado por bem vitimizar-se.Se este tipo de névoa linguística se tornou muito comum, admito que em outras circunstâncias de modo mais malicioso (quando o “alegadamente” é usado para servir de escapatória para voluntárias falsidades), no caso da Educação e de problemas disciplinares e de violência nas escolas tornou-se uma espécie de regra protocolar, importada do mundo jurídico-político em que algo só se pode considerar comprovado se não tiver conseguido escapar graças a um artifício técnico ou retórico.Até à confirmação oficial de prova concreta, a presunção de inocência é levada ao extremo de termos de duvidar do que foi de conhecimento claro e objectivo, numa espiral de relativização apresentada como “garantia” dos acusados. Que, em bom português, não passa de uma grande falácia. Alegadamente, claro. Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico