Acordo Mercosul-UE: trabalho e futuro

Raimundo Carreiro Silva

Embaixador do Brasil

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Amanhã, 1.º de Maio, dia consagrado a celebrar o trabalho, o Mercosul e a União Europeia cruzam, finalmente, um limiar histórico. A entrada em vigor do Acordo de Parceria entre o Mercosul e o bloco europeu, em regime provisório, não é um mero trâmite administrativo. É, acima de tudo, o fruto de um esforço diplomático de grandes proporções, obra coletiva de paciência e diálogo, que oferece aos nossos trabalhadores e empreendedores um novo horizonte de possibilidades. Amanhã, celebramos o trabalho que gera futuro, cientes de que toda a grande transformação exige adaptação, escuta permanente e responsabilidade social.

O Acordo cria uma das maiores áreas de aproximação comercial do planeta, unindo 720 milhões de pessoas num destino comum. Mas, além das cifras de biliões de euros, o que este momento representa é a criação de oportunidades reais e a valorização do talento de ambos os lados do Atlântico. Queremos que este entendimento se traduza em trabalho digno, em inovação nas nossas fábricas e em dinamismo nos nossos campos, protegendo quem produz e promovendo um ambiente onde o esforço criativo possa florescer com segurança e estabilidade. Isso implica reconhecer que os benefícios do acordo deverão ser acompanhados de políticas de transição e regulação e de um diálogo constante com os setores mais sensíveis. O trabalho da negociação dá seu espaço ao trabalho constante de implementação.

Nesta longa caminhada, Portugal foi um parceiro incontornável. O Governo Português foi o trabalhador tenaz que azeitou as engrenagens deste acordo para que não travassem perante as incertezas. Portugal não se limitou a observar; atuou constantemente como um mediador que sabe que a nossa força reside na união. Lisboa compreendeu, antes de todos, que este acordo atendia às exigências do mercado europeu, ao mesmo tempo em que abraçava a energia e o potencial do Mercosul.

Para o Brasil, Portugal é muito mais do que um parceiro: é a nossa casa na Europa. Como afirmou o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva na sua recente visita a Lisboa, Portugal é a “grande porta de entrada dos interesses empresariais brasileiros”. Mas não pode ser apenas uma via de passagem. É preciso que seja nossa morada, onde seja feita a “construção de uma parceria robusta”, na feliz expressão do Presidente, onde o investimento brasileiro se instale, gerando valor, emprego local e relações duradouras. Ao reconhecer a vocação universalista portuguesa, o Brasil reafirma que o nosso caminho passa por este constante intercâmbio de ideias, onde o talento brasileiro e o saber português se fundem para criar algo novo.

Encontro dos chefes dos Executivos brasileiro e português, o presidente  Lula da Silva e o primeiro-ministro Luís Montenegro.
Encontro dos chefes dos Executivos brasileiro e português, o presidente Lula da Silva e o primeiro-ministro Luís Montenegro.Gerardo Santos

O acordo simplifica regras e abre portas para que o trabalho encontre novos mercados. É um convite para que pequenos e médios empresários ousem atravessar o oceano, como outrora tantos portugueses de todos os quadrantes o fizeram, sabendo que encontrarão um terreno fértil e seguro, alicerçado em padrões regulatórios elevados e busca constante pela inovação.

Mesmo as questões ambientais, que outrora pareciam obstáculos, são hoje um campo de colaboração. O nosso compromisso mútuo com o clima irá atrair investimentos para o emprego verde e para as energias do futuro. Brasil e Portugal estão prontos para liderar esta transição, mostrando que a sustentabilidade é um espaço de trabalho conjunto, baseado na confiança mútua e na cooperação técnica.

"Portugal foi um parceiro incontornável. O Governo Português foi o trabalhador tenaz que azeitou as engrenagens deste acordo para que não travassem perante as incertezas.”

Iniciamos amanhã, 1.º de Maio de 2026, a fase prática desta jornada. É o momento de transformar a letra dos tratados na realidade da vida das pessoas. O desafio exige a mesma agilidade e dedicação que define os nossos povos. Mais do que uma meta alcançada, iniciamos uma caminhada movida por uma determinação que é, ao mesmo tempo, antiga e renovada.

Em 1987, em Brasília, antecipando os laços que agora se estreitam, o Presidente José Sarney disse ao Presidente Mário Soares que “o passado nos une; o futuro deve associar-nos”. Essa visão quase profética do estadista brasileiro, que foi precursor do Mercosul, ao estadista português, que negociou a entrada de Portugal na antiga Comunidade Econômica Europeia, ganha hoje o seu contorno mais nítido.

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