Acampadas e a cidade

Luís Newton

Consultor

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Em Lisboa, há quem leve duas horas para chegar ao emprego, porque o salário não chega para viver perto dele.

No segundo trimestre de 2026, segundo o INE, o preço mediano das casas vendidas na cidade atingiu 5299 euros por metro quadrado. Esta crise tem rostos, não apenas estatísticas.

A resposta não se esgota em apontar culpados ou decretar rendas mais baixas. Falta habitação onde a procura se concentra. Há casas vagas que precisam de obras ou ficam longe de quem procura. Temos de pensar cidade antes de a construir, para quebrar o ciclo destes erros.

Temos de discutir, sem preconceitos, a construção em altura, nos locais onde os transportes e os serviços a suportem. Sabemos que mais pisos não garantem casas acessíveis, mas impedir novos pisos também não as cria.

Uma família que não consegue pagar a renda tem razões para sair à rua, mas o comerciante que receia abrir a porta no dia seguinte também tem o direito de esperar proteção.

A democracia não deve obrigar-nos a escolher entre os dois.

Há ainda perguntas incómodas sobre quem conduz estas mobilizações.

O Correio da Manhã noticiou a presença da Unidade Popular pelo Socialismo e do Movimento Olga Benário, organizações políticas brasileiras. No Porto, um participante apelou a um ataque à casa do primeiro-ministro… felizmente os organizadores demarcaram-se.

Não está provado que estas organizações dirijam os protestos, mas nem por isso deixa de ser legítimo perguntar quem organiza, quem decide e com que objetivos. O passaporte de quem se manifesta não me interessa. Interessa-me a responsabilidade de quem convoca.

Na madrugada de 25 de outubro, a PSP interveio nas acampadas de Lisboa e Porto. Houve 31 detenções e 11 feridos, segundo o balanço policial.

Depois de sucessivos avisos, ordens não acatadas e danos no espaço público, esperava-se o quê? Uma polícia que tenha receio de agir por medo do julgamento instantâneo das redes sociais? A PSP não pode ter carta branca, mas também não pode ser empurrada para a inação.

O uniforme não dá imunidade, mas o escrutínio não pode transformar-se numa condenação antecipada de qualquer ação policial. O medo de ser criticado não pode ser maior do que o dever de proteger.

Quem procura transformar uma causa social numa oportunidade para provocar confrontos, incluindo grupos extremistas que tentem instrumentalizá-la, faz imediatamente duas vítimas: a comunidade ameaçada e os manifestantes pacíficos, cuja voz fica abafada.

E estão prometidas mais acampadas, que terminam quando? Qual o objetivo?

É que uma praça não deixa de ser de todos só porque alguns decidem passar lá a noite. É de quem protesta, mas também de quem a cruza para o trabalho, do comerciante que abre a loja e do idoso que nela tem a sua rotina. A polícia tem de proteger uns e outros, nos limites da lei.

Porque uma cidade onde falta espaço para viver não ganha nada se perder o espaço que é de todos.

E na cidade que queremos construir, ninguém deve ter medo de não ter casa, mas também ninguém deve ter medo de sair dela.

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