A vida sem estratégia para o fim

Patrícia Reis

Jornalista e escritora

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Há uma espécie de pacto silencioso que fazemos com a vida: sabemos que acaba, mas comportamo-nos como se fosse apenas um rumor distante. A morte é a única certeza democrática que temos, no entanto tratamo-la como um acidente improvável. E não é apenas na morte que evitamos pensar. Não queremos pensar nos anos que a antecedem, muitas vezes longos e exigentes, que empurramos para fora do enquadramento, como se não fossem connosco.

Planeamos carreiras, férias, investimentos, mas há uma espécie de ângulo morto quando se trata da fase mais vulnerável das nossas vidas. Não há estratégia para o fim, há superstição: pensar pode atrair a morte? Antecipar é desistir?

Tememos a doença, o corpo que falha, a dependência. Sabemos o que faz bem: movimento, vínculos, estabilidade, acompanhamento médico, horas de sono. Nunca foi uma questão de falta de informação, é uma recusa em decidir. Queremos viver muito, mas não queremos fazer o necessário para viver bem durante muito tempo.

Envelhecer é também um processo social: quem nos visita, quem nos escuta, quem nos mantém ligados ao mundo. Isso constrói-se, porém preferimos acreditar que as relações resistem por inércia, como se o afeto não exigisse cuidado.

No plano financeiro, repetimos o mesmo erro. Falamos de autonomia, mas evitamos fazer contas, como se a velhice fosse sempre mais tarde. E quando chega, chega com uma brutalidade prática: despesas, limitações, dependências não previstas.

Há ainda uma dimensão menos falada e igualmente decisiva: o impacto das nossas escolhas nos outros. Não preparar o fim é, muitas vezes, transferir o problema para os filhos, para os parceiros, para quem fica. A ausência de decisão não é neutra, é uma forma de delegação sem consentimento.

Talvez o mais desconfortável seja reconhecer que ignoramos porque escolhemos ignorar. Preferimos a ilusão de um presente contínuo à responsabilidade de um futuro concreto. Preferimos não olhar para não ter de agir.

Há um preço e este paga-se em perda de qualidade de vida, em sofrimento evitável, em dependência que poderia ter sido atenuada. Não se trata de controlar o inevitável, mas de influenciar o que ainda está em aberto.

Pensar na morte de forma estratégica não é mórbido, é vital. Obriga a perguntas simples: como quero viver os últimos anos? Com que autonomia? Com quem? E o que estou a fazer hoje para tornar isso possível? A resposta, quase sempre, é desconcertante. Experimentem, porque planear a morte não é mórbido, é um ato de inteligência.

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