Antigamente os desastres tinham origem divina: um Deus cruel e insaciável punia a Humanidade com dilúvios, incêndios e terramotos, que os humanos, culpabilizados, sofriam como castigos merecidos.O tremor de terra de 1755, em Lisboa, veio inspirar a crítica iluminista de Voltaire a essa ideia da culpa dos homens pelas maldades da Natureza. Seriam os pecados em Lisboa tão mais escandalosos que os de Paris? Mas a conceção científica e naturalista dos desastres veio tirar de cena algo de essencial para os nossos lutos: a existência de um culpado, de um bode expiatório, para carregar com o mal do mundo.A crise climática do chamado Antropoceno, a verificação científica da relação entre o progresso industrial da Humanidade e a agudização das situações climáticas veio oferecer-nos uma explicação mais racional, mas que exige de nós uma transformação civilizacional maior do que seria a remissão de todos os pecados perante Deus.A verdade é que, face aos desastres naturais, se podem encontrar causas mais próximas e pequenas, que nos ajudam a encontrar culpados mais óbvios: construímos nos antigos leitos dos rios, na beira dos mares, nas falésias instáveis, e a falta de prevenção dos fenómenos climáticos, que ano após ano aumentam a sua força destruidora, veio agravar as perdas e os danos.É justo que à Providência divina se tenha vindo substituir a imprevidência dos homens e à culpa pelos pecados as falhas de previsão e planeamento, a fraqueza dos materiais de construção e outras causas mais concretas e materiais.Mas as culpas e os protestos, por justos que possam ser, não devem esconder-nos a onda de solidariedade que estas cheias e vendavais, com todos os seus dramáticos prejuízos, veio levantar na nossa sociedade, tão trabalhada que tem sido ideologicamente no sentido de um individualismo egoísta e possessivo, mas que soube trazer às vítimas a atenção e os socorros possíveis nos primeiros momentos.As autarquias souberam estar na primeira linha das emergências, desde a mais pequena junta de freguesia até às maiores câmaras, como Leiria e Coimbra. E o Estado mostrou que, contrariamente a alguns extremistas do neoliberalismo, faz mesmo falta.Mas quem restitui às populações o trabalho e a vida que lhes roubaram as intempéries? Quem restitui a vida aos que morreram numa estrada feita rio? Há um núcleo de imprevisibilidade na tragédia, que poderemos, com a força da razão e da ciência, combater, mas que nunca eliminaremos do nosso horizonte.Bichos da terra tão pequenos somos, no dizer de Camões...