Quando algo corre muito mal numa área da governação e a informação sobre as perturbações foge ao controlo das máquinas comunicacionais das equipas ministeriais, surge mais cedo ou mais tarde a teoria do “ruído”. Na área da Educação, há toda uma tradição a esse respeito, queixando-se os governantes e suas cortes mediáticas, de nada de anormal estar a acontecer, apenas se verificando “problemas de comunicação” por causa do “ruído” instalado por gente mal-intencionada. Em regra, por estes dias, culpam-se as redes sociais, como em outros tempos se culpavam os blogues.
Insinua-se que há disseminação de informação falsa, não-verificada, de modo a causar alarme e perturbação, não passando as denúncias, quase sempre baseadas em factos, de “ruído”. Foi o que fez o actual ministro da Educação quando, a 22 de Julho, em entrevista à RTP, declarou que “houve um ruído desnecessário” nos protestos ligados ao processo de classificação digital dos exames. Dias depois, voltou a qualificar como “ruído” uma manifestação de alunos contra esse mesmo processo.
A qualificação como “ruído” das denúncias públicas relacionadas com os erros no processo de digitalização da classificação (falta de folhas de continuação, atrasos no acesso aos itens) tentou ocultar factos indesmentíveis, relativizando-os ou mesmo negando-os. No entanto, como foi possível verificar, a realidade encarregou-se de demonstrar quem durante mais tempo do que o aceitável, andou a produzir informação inadequada para a opinião pública.
Neste particular, como noutros, o actual ministro da Educação e a sua equipa estão longe de ser originais, porque o uso do “ruído”, como forma de dar a entender que tudo estaria a decorrer normalmente se não fossem umas maldosas intervenções externas, vem de longe. Recordo-me, por causa da referência ao “ruído” atribuído aos blogues, das declarações do então secretário de Estado da Educação, Alexandre Ventura, ao Expresso (Dezembro de 2009) a propósito das negociações sobre a carreira docente.
No ciclo político seguinte, quando Nuno Crato ficou sob fogo devido a erros no concurso de colocação de professores, um deputado social-democrata diria ao Observador (19 de Setembro de 2014) que tudo se devia em grande parte ao “ruído mediático”. Na preparação do ano lectivo de 2020-21, foi a vez de o ministro Tiago Brandão Rodrigues acusar os sindicatos, em especial a Fenprof, de “gerar ruído”, o que causaria “angústia nas famílias” (SIC Notícias, 26 de Julho). E nem é bom recordar o que foi dito ao longo dos anos de luta dos docentes pela recuperação do seu tempo de serviço congelado. “Ruído” terá sido das expressões menos acintosas então usadas para desqualificar as posições dos professores.
Em suma… o poder político e os governantes tendem a considerar como “ruído” quando surgem no espaço público informações, relatos, denúncias, de situações que revelam detalhes incómodos para a sua acção e escapam ao controlo da agenda comunicacional oficial e que são divulgadas de forma independente dos meios de comunicação tradicionais, em regra pouco rápidos a reagir e demasiado permeáveis ao discurso relativizador do poder político. Ou seja, por “ruído” deve entender-se a descrição de uma realidade não-alternativa.
Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico